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Fortalecendo a cena

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O Festival Casarão movimentou a cena musical de Rondônia no último fim de semana. Ao todo foram cinco dias de evento, incluindo palestras e workshops, e três dias dedicados aos shows, movimentando ao todo cerca de 6 mil pessoas.

Para atrair público a produção apostou em headliners de artistas renomados nacionalmente como Cachorro Grande, Dead Fish e Pitty (que atraiu uma legião de 3 mil adolescentes).

Sexta-feira, 2 de maio

No primeiro dia de shows, assim como em quase todo o festival, o que se viu foi um desfile de bandas pesadas, que variavam do hard core ao new metal. As três primeiras a se apresentar no Kabanas foram DHC (o nome já entrega), Prysmman (que até arriscou alguns covers de Korn e Tihuana, variando do new metal ao pop) e Incinerador (death metal gutural), todas de Rondônia e que deram o ponto de partida nas bandas metaleiras do Casarão.

Em seguida vieram Visitantes (SP) e Underflow (AM). Os paulistas conseguiram se destacar no começo de noite justamente por fugir da onda pesada e sem criatividade que já perdurava nas primeiras horas. Tirando as letras engraçadinhas, a sonoridade experimental do grupo conseguiu agradar os presentes.

Com a ausência do Mr Jungle (que tocaria no dia seguinte), quem assumiu o lugar no line-up foram os locais do Bicho du Lodo. Uma espécie de Nação Zumbi que ao invés dos tambores abusava do peso das guitarras chegando quase a soar new metal. O instrumental repleto de variações compensou as letras “intelectuais”, numa tentativa de adaptar o discurso do mangue-beat para a realidade local.

Mudando totalmente de estilo os cariocas do Do Amor conseguiram fazer um dos melhores shows do Casarão. Uma mistura de ritmos regionais como a lambada, guitarrada e carimbó, com o indie rock. Aos gritos de Chimbinha, a molecada que até então se acabava ao som de rock pesado, dançou ao som de músicas como “Pepeu Baixou em Mim”, “Perdizes” e “Isso é carimbó”.

Espécie de heróis locais, o Coveiros mostrou que possuiu um público fiel em Porto Velho. Adeptos do hard core, aqueceram a molecada para o show dos capixabas do Mukeka di Rato.

Veteranos da cena hard core nacional, o Mukeka di Rato causou um pandemônio em Rondônia. Em pouco mais de meia hora de show conseguiram tocar mais de 20 músicas em meio a stage divings e uma roda que durou toda a apresentação.

Para fechar a primeira noite do Casarão, o primeiro headliner, Cachorro Grande. Muitos fãs da banda se acabaram em frente ao palco, cantando todas as músicas. O repertório foi um apanhado dos quatro discos do grupo. Algumas músicas clássicas dos gaúchos como “Lunático” e “Sexperienced” foram misturadas com as mais recentes “Destoa”, “Você Me Faz Continuar” e “Sinceramente”.

Sábado, 3 de maio

No sábado, o festival aconteceu no Casarão que dá nome ao festival. Antes de ser reformado e tombado como patrimônio histórico, no local funcionava o extinto Iate Clube de Porto Velho. Um belo cenário que corre o risco de ficar submerso devido a construção de uma usina hidrelétrica na região.

No line-up mais algumas bandas de hard core, new metal e metal melódico. A ausência da noite foi o grupo carioca Toatoa, substituído pelo Mr Jungle.

As locais One Weak (uma mistura de new metal com Rage Against The Machine) e Hell Fire (metal melódico beirando o progressivo) abriram o sábado. Em seguida vieram Marlton (uma das revelações da nova cena acreana) e a local SucodinoiS.

Mas foi a partir do Boddah Diciro (TO) que a noite começou a melhorar. Influenciados principalmente pelo grunge do Nirvana, eles conseguiram fugir da onda metaleira rondoniense. No final sobrou até uma versão de Portishead.

A estrutura dos shows do sábado mostrou-se mal planejada, composta por dois palcos posicionados lado a lado (vazando som de um palco pro outro durante as passagens de som) e uma tenda eletrônica onde os Djs pareciam competir com as bandas de rock (aumentando o som quase toda hora).

Aliases (que ao lado do Mezatrio e Tetris formam a emergente cena amazonense) e Rádio Ao Vivo (RO), antecederam o primeiro momento de frisson do sábado que rolou durante a apresentação do Mr Jungle. Mesmo apostando em todos os clichês do hard rock a banda funciona muito bem ao vivo, e principalmente, como entretenimento pra garotada.

Em seguida três shows que podem ser considerados os melhores do sábado: Mezatrio (AM), Macaco Bong (MT) e Recato (RO). Mezatrio e Recato apostam no indie rock, a primeira abusando mais das guitarras e a segunda (apesar de ser uma cópia de Los Hermanos com o Amarante no vocal) apostou em letras românticas, mostrando que nem só de metal vive a cena rondoniense.

Macaco Bong é um caso a parte. Ao lado de Móveis Coloniais de Acaju e Vanguart, o trio instrumental cuiabano é o que de melhor existe na nova música nacional. Mesmo com problemas no som (e com o excesso de ruídos vindos da tenda eletrônica e do palco ao lado), os Bongs fizeram o melhor show da noite. Tocaram músicas de seu primeiro álbum Artista Igual Pedreiro com a mesma potência de sempre.

Vale ressaltar ainda que Ynaiã e Kayapy além de tocarem, também tramparam durante todo o festival na coordenação de som dos palcos, enquanto Ney realizou workshops e ajudou na comunicação do evento, fazendo jus ao rótulo de “pedreiros”.

O show mais prejudicado pela qualidade de som e pelo mau posicionamento dos palcos foi o dos goianos do MQN. Visivelmente incomodados com a tenda eletrônica, Fabrício Nobre e companhia fizeram um show bem abaixo daquilo que o MQN é capaz de fazer ao vivo.

Com status de headliner, os capixabas do Dead Fish fecharam a segunda noite do Casarão. O emo core do grupo conseguiu atrair bastante público ao evento e durante toda a apresentação o que se via eram garotos alucinados, invasões de palco e muita pancadaria. No bom sentido, é claro.

Outro ponto negativo da estrutura de sábado foi a falta de lixeiras, o que acarretou em muitas pessoas jogando latas de cerveja e copos no rio Madeira. Consciência ambiental nunca é demais.

Domingo, 4 de maio

O último dia de shows do festival foi novamente no Kabanas. Logo já se via que o público seria bom, como de fato foi. Cerca de 3 mil pessoas lotaram o local para ver a cantora baiana Pitty. Em sua maioria, adolescentes e crianças (acompanhadas dos pais). Um terceiro palco foi montado no local, já que nas exigências da headliner Pitty estavam um palco só pra ela.

Com um atraso de 2 horas, três bandas de Rondônia deram início aos shows: Celul´Ativa (emo core estilo malhação), Di Marco (indie rock) e Miss Jane (metal farofa). Das três quem se destacou foi Di Marco, banda do interior do estado, que mostrou personalidade e influências do novo rock de Franz Ferdinand e Arctic Monkeys (rolou até uma versão de “Fake Tales of San Francisco”).

O atraso foi compensado pelas ausências de Seu Miranda (RJ) e Johnny Suxx n’The Funcking Boys (GO). A banda goiana não compareceu, pois o vocalista João Lucas estava com dengue.

Os paranaenses do Esquerda Volver, que já haviam tocado em Porto Velho antes, mais pareciam uma banda cover do RPM. Já Hey Hey Hey (RO) se mostrou uma das grandes revelações do festival. Tocando músicas de seu recém lançado EP Pequeno Monstro, misturaram guitarras agudas com algumas pitadas de eletrônico (tiradas de um tecladinho de brinquedo).

A única atração internacional do Casarão veio logo em seguida. Os bolivianos do Querembas fizeram um show de alto nível técnico. Um new metal pesado, lembrando bandas como Slipknot e Mudvayne. Um dos pontos altos do show foi a versão pesada para a lambada “Chorando se foi”.

Mantendo o peso dos bolivianos, os locais do Ultimato se mostraram uma das bandas mais preparadas da cena. Alternando entre o new metal e o screamo (vertente mais pesado do emo) chamaram atenção pela qualidade de seus músicos, diferente do que se viu nas noites anteriores, onde bandas de new metal apenas requentaram o gênero.

Antes da grande atração da noite, os paulistas do Travecos Falsos (Ecos Falsos com Daniel Belleza) fizeram um show visceral e bem humorado. Tocaram músicas do último disco dos Ecos Falsos, Descartável Longa Vida. como “A revolta da musa”, “O Bom Amigo Inibié” e “Findo Milênio”, e algumas do Daniel Belleza e Os Corações Em Fúria como “Aonde estão as flores da sua cabeça”. Além de Belleza, o combo paulistano ainda contou com a participação do guitarrista da banda de Pitty, Martin. No final ainda rolou um cover de “Bullet With Butterfly Wings”, do Smashing Pumpkins.

O momento que o público mais esperava enfim chegara. A cantora Pitty fez um show intenso acompanhada em coro pelos 3 mil presentes. A cada canção gritos histéricos eram ouvidos.

Com uma banda formada por bons músicos e talvez com a melhor condição de som de todo o festival, Pitty levantava a galera com uma seleção de sucessos radiofônicos como “Memórias” (com uma inserção dub de “California Uberales” do Dead Kennedys), “Teto de Vidro”, “Equalize” e “Anacrônico”.

O show ainda teve a participação de Daniel Belleza numa versão de “Highway To Hell” do AC/DC. Sem bis e com ares de matinê, Pitty finalizou sua apresentação e a edição 2008 do Festival Casarão.

No geral o festival mostrou potencial para crescer ainda mais. Assim como o Jambolada do ano passado, a aposta em headliners de peso + bandas locais, conseguiu atrair um bom público para o festival. Tirando algumas falhas estruturais como as do sábado e o excesso de bandas locais de hard core e metal, o Casarão já figura como um dos maiores festivais da região norte.

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