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Volver detalha Acima da Chuva

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Os pernambucanos do Volver acabaram de lançar o excelente Acima da Chuva (Senhor F Discos), o segundo disco de sua curta, porém bem-sucedida carreira. O Urbanaque aproveitou o ensejo e pediu para o vocalista e guitarrista Bruno Souto fazer um comentário geral das faixas do álbum. Confira abaixo o faixa-a-faixa e ouça o Acima da Chuva no myspace da banda (www.myspace.com/volverbrasil)

1. Pra Deus Implorar
Pra mim é uma das melhores músicas que já fiz. E acho fundamental começar um disco com uma grande canção. Esse é o típico caso de composição que não mostra todo seu potencial logo de cara. Depois é que percebi o quanto gostava dela. A letra fala basicamente da surpresa que é ser correspondido por alguém que se quer. É você quase não acreditar que o sentimento é recíproco, mas quando a ficha cai, bingo! Quando fomos gravar, mudamos um pouco o andamento da bateria para deixa-la mais dançante. Gosto bastante dessas batidas retas e dançantes tipo Talking Heads, Franz Ferdinand. O ótimo riff de guitarra do Diógenes (a sua inseparável Epiphone Sheraton II) é claramente influenciado pelo The Strokes e nota-se de cara, uma mudança na minha maneira de cantar (em relação ao primeiro disco). Acho que isso se deve a um maior apreço e confiança nesse fundamento.

2. Dispenso
Grande canção! A idéia surgiu num ensaio quando o Diógenes estava dedilhando uma seqüência de duas notas que me chamaram a atenção. Quando cheguei em casa, comecei a trabalhar nela (na verdade não tem nada a ver com o dedilhado que ouvi, mas que me inspirou a fazer a introdução da forma como está no disco e que deu o rumo da música). No ensaio seguinte, levei a música praticamente pronta: estrofes, refrão, letra e uma seqüência de notas que o Diógenes tinha me mostrado uma vez, que usamos na harmonia do solo. Um tempo depois, bolamos a seqüência final que ficou muito bacana. Notei de cara que a base seria no violão (que gravei com um Fender que tinha adquirido à época) e tenho a impressão que mais na frente iremos explorar melhor esse formato meio folk rock em algumas canções, já que sou um grande fã de The Byrds, Neil Young e Dylan. Ela possui um clima soturno que faz um ótimo contraponto em relação a música que abre o disco. Uma seqüência matadora! E além de uma linha de baixo econômica que gosto bastante, tem um belo arranjo de guitarra e um solo que pra mim, traduz o momento confuso e dolorido de quando se perde o chão após o término de uma relação, que é a imagem que a letra passa.

3. A Sorte
Depois de “Tão Perto, Tão Certo”, “Pra Deus Implorar” e “Clarice”, essa é minha preferida atualmente (risos). Me lembro que pensei em colocá-la como faixa de abertura do disco. Acho uma música poderosa que passa uma mensagem otimista, de seguir sempre em frente, aproveitar cada momento do percurso, pois, cedo ou tarde a sorte te alcançará. Ela começa com uma levada à la “London Calling” do The Clash e toma vida própria.

4. Não sei Dançar
Acho que é uma das que tem mais apelo pop do disco. Surgiu numa situação bem parecida de “A Sorte”. Estávamos em São Paulo e o Zeca estava no baixo tocando uma linha aparentemente banal, quando passei e ouvi, imediatamente me veio uma melodia vocal. Sentei, achei os acordes e rapidamente surgiu o que seria a estrofe já com as primeiras frases da letra. Ficamos brincando com a música e então me veio a melodia do refrão. O Diógenes apareceu em seguida e meio que esboçou um riff na parte do meio. Quando voltamos pra Recife terminei a letra e no ensaio fechamos a estrutura completa. Ela soa bem energética e o termo dançar da letra pode ser encarado literalmente ou no sentido de um relacionamento. Lembro que gravei minha parte com uma Fender Telecaster Custom.

5. Natural
Na época que a compus, estava escutando muito o disco Clube da Esquina do Milton e do Lô Borges, além dos primeiros discos do Beto Guedes e acho que de alguma maneira isso me inspirou. E a letra foi tipo: vou tentar ser o mais racional possível e trabalhar mais atentamente, pois geralmente as minhas letras saem espontaneamente. Meio que inconscientemente. Tentei passar um pouco do que foi o modo como o disco foi feito e como estava me sentindo em relação a todo trabalho feito até então, expondo o mais claro possível o modo verdadeiro como tudo ocorreu. A parte do meio é um dos melhores momentos instrumentais do disco e os produtores do disco deram ótimas idéias, como por exemplo, executar o solo com um ventilador portátil (desses descartáveis) batendo nas cordas. E a linha de flauta no final também ficou ótima.

6. Tão Perto, Tão Certo
Engraçado isso de inconsciente. Lembro que depois que a música estava pronta, vi que o início da melodia vocal me lembrava outras três músicas que gosto muito: “Mon Amour Meu Bem Ma Femme” do Reginaldo Rossi, “O Vento” do Rodrigo Amarante e “Desafinado” do Tom Jobim. Aí pensei: meu deus, roubei de quem??? (risos). Me orgulho muito dessa música. Acho que tem um enorme potencial e já sinto que é uma das preferidas do público que vai aos nossos shows. Foi a primeira música gravada do disco e que nos deixou muito animados em trabalhar nas restantes. Ela surgiu com um andamento diferente até que então eu “roubei”, dessa vez conscientemente, o andamento do início de “See No Evil” do Television (risos). Na verdade todo compositor é uma espécie de “ladrão”: tá sempre “roubando”, mesmo que muitas vezes não se dê conta. A letra passa um sentimento de negação e superação. De estar perto (numa mesma cidade, ou rua, ou casa) de alguém que não se quer mais e ao mesmo tempo negar e superar. Não acreditar mais naquilo e se manter firme na posição tomada. Mais pode ter outros significados pra outras pessoas e até mesmo pra mim. Quem sabe?

7. Acima da Chuva
O título surgiu antes da música. Estávamos indo fazer um show em Brasília, e em Recife caía uma chuva torrencial. À medida que o avião ia subindo, eu e o produtor da banda, Maurício, íamos observando pela janela toda aquela água caindo. De repente, numa fração de segundos, estávamos vendo todo aquele lindo céu azul e um sol que nunca vi igual. A expressão surgiu na hora como mágica. Tempos depois estávamos eu, Fernando e Diógenes na minha casa e ele tocou uma seqüência de acordes que me chamou a atenção. Ele disse que era de uma música do Lennon, e eu falei: Não faz mal, eu coloco outra melodia em cima (risos). A partir disso, desenvolvi o resto da música e alguns dia depois terminei a letra. Foi quando lembrei da cena do avião (sempre componho a música primeiro, juntamente com a melodia vocal. Depois é que vem a letra). Depois de muitas idéias na hora de gravar ela acabou com um clima meio Pet Sounds. Uma balada tipicamente volveriana, com várias partes e tal.

8. Dia Azul
l Essa é felicidade pura. È sair cantando pela rua num dia de sol. Naquelas horas que você se sente apaixonado por alguém, pela vida, por tudo. Um sentimento irracional, ingênuo. Ela possui um ótimo refrão: um misto de Beatles e Beach Boys e um solo bem melódico. E o final é uma explosão de alegria (risos). Apesar de não termos calculado, nos soou a continuação natural de “Acima da Chuva”.

9. Coração Atonal
Imediatamente após eu ter mostrado “Natural” pro resto da banda, Zeca apareceu com essa. Assim que ele terminou eu exclamei: “Essa ta dentro!” (risos). Adorei a melodia e a letra. Isso foi poucas semanas antes de entrarmos em estúdio. Léo e William (os produtores) fizeram um belíssimo trabalho de cordas sem cair no piegas. Ficou com a maior cara de novela das oito! (risos). Fiquei muito satisfeito com minha performance vocal nessa faixa e do resultado final como um todo. Quando fomos montar o disco, tive a idéia de coloca-la após “Dia Azul” e fazer algo do tipo lado b do Abbey Road. Deixar as três músicas interligadas. Claro que isso só fica mais bacana no disco, e não em arquivos de mp3. Mas, apesar disso, elas possuem brilho próprio individualmente.

10. Clarice
Essa foi a última composta e a última gravada. Gravamos uns seis meses depois do disco finalizado, em outro estúdio. Tinha que entrar né? Fodaça! Fiz depois de ler um livro de contos da Clarice Lispector chamado “Felicidade Clandestina”. Fiquei chapado com o livro. A letra veio de uma vez e expressou o que estava sentindo na hora. Como o Diógenes saiu da banda (foi morar na Europa) quem gravou a outra guitarra foi o ex-baixista da banda Rádio de Outono, Kleber Croccia, que está nos acompanhando nos shows. Gravei minha parte com uma Telecaster Squier e com meu violão Fender numa partezinha do meio da música. O Léo executou um solo de teclado com um timbre de teremim + órgão. Foi bom o disco ter atrasado (aproximadamente 1 ano), pois incluímos essa pérola no repertório.

11. Despedida em Seis por Oito
Pra encerrar, a psicodélica do disco. Muito por causa do efeito no vocal. Pedi aos produtores que fizessem com que minha voz soasse como “Dia 36” dos Mutantes. A letra fala mais uma vez da negação e de uma esperança de uma superação. A última frase do disco diz tudo: “lembre, vou te esquecer” Uma espécie de exorcismo dos fantasmas que habitam meu ser (risos). Sampleamos (através de um controlador midi) o som de uma orquestra tirada diretamente de um vinil com músicas do Villa-Lobos, e executamos numa melodia que compus inspirado em música do Mozart! Deixamos as segundas vozes sem o efeito da voz principal pra fazer o contraponto e no final, tocamos um único acorde interruptamente até quase não agüentarmos mais. Sem edição. O que fizemos foi colocar um fade out e um fade in pra voltar a música e terminar com um som de chuva. Ah, também colocamos no final vozes ao contrário. Fechou o disco com chave de ouro.

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