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Festival Demosul na trilha certa

demosul-2008

Realizado na cidade de Londrina (PR), o festival Demo Sul, que vem crescendo progressivamente dentro do atual cenário, celebrou este ano sua oitava edição. A grandeza inquestionável em relação aos anos anteriores fica nítida quando se entra em questões como o público presente, a infra-estrutura de primeiro porte, a escolha do local dos shows e, principalmente, a escolha de boas bandas primando pela qualidade, e não somente quantidade.

Priorizando a tal qualidade e o crescimento, esta edição foi realizada em espaço físico imensamente superior, o Clube Grêmio de Londrina que, além de espaçoso, proporcionou um formato novo e muito interessante que foi a divisão dos shows em dois palcos: o Demo Sul e o Sonkey.

Fazendo as vezes de ação social como em outros festivais, o Demo Sul também recebeu visita da ONG Meio Ambiente Equilibrado e contou com um grupo de teatro da UEL. Além de entreter e conscientizar os presentes, eles ainda se encarregaram das pesquisas sobre o público consumidor do evento.

Com uma estimativa de aproximadamente 6 mil pessoas nos shows dos dias 10 e 11, algumas outras ações foram realizadas previamente e conseguiram expandir ainda mais a marca Demo Sul. Shows na Concha Acústica (localizada no centro da cidade) e o IV Simpósio de Música Independente vieram para dar mais dinâmica e favorecer outros pontos da proposta do festival, como alcançar público diferenciado (no caso dos shows na Concha) e a conscientização sobre os atuais caminhos da música e da mídia independentes.

Exemplo de organização, o Demo Sul foi próspero em sua edição 2008 e fez jus aos incentivos recebidos pela Petrobras, proporcionando melhorias extremamente significantes e perceptivas para quem já vem acompanhando essa e outras andanças por festivais. Já na questão musical, é sempre uma surpresa topar com tantas boas bandas, cada qual a seu estilo, da própria cena local que, diga-se, não se compara à de nenhuma outra região do país. Seja pelo bom nível social e intelectual da cidade, os londrinenses comportam grupos originais, temáticos, contemplativos e absurdamente antenados com o mercado. Novidades não faltaram assim como shows clássicos, imperdíveis e já consagrados em Londrina (caso do Terra Celta) e no mundo todo (vide Mudhoney).

Confira em texto e vídeo os grandes destaques dos dois dias de festa do Demo Sul 2008.

Sexta-feira, dia 11 – O festival teve seu início às 20 h, horário estipulado e cumprido sem atrasos, com o Mescalha, de misturas variadas como blues e ritmos brasileiros. A apresentação modesta e o público tímido eram somente o início do que, depois, se transformou em multidão e shows com um quê de memoráveis.

Já na segunda apresentação, muitas guitarras e timbres dos anos 90 foram ouvidos com o Flattermaus, uma pegada indie rock com garagem, beirando Foo Fighters nos vocais. A banda só deixou a desejar no quesito entretenimento, já que não conseguiu manter a atenção dos presentes. Por outro lado, quem veio em seguida foi um dos maiores destaques e surpresas deste ano.

O quinteto infernal 220 Ska Bar fez um show redondo em seus 30 minutos de apresentação. Deixando aqueles que não os conheciam pasmos com a energia e a segurança no palco, a banda londrinense traz um pouco do que costumavam ser os antigos shows do Bidê ou Balde: música pra se divertir de alto teor sarcástico e sensual, boas letras, instrumental na medida, sem virtuoses e vocais acelerados. Entrando na categoria das bandas contemplativas de Londrina, o sexteto desfilou um visual impecável, danças características e até um baixo todo quadriculado em branco e preto, além de aludir a black music em alguns momentos. Vê-se que os meninos, e menina, já sabem se portar diante do público e fazem bom uso dos holofotes.

220 Ska Bar @ Festival Demosul 2008 (Londrina/PR) from Urbanaque on Vimeo.

A esta altura, o Demo Sul já contava com público considerável que só viria a aumentar até o fim da noite. Sorte dos que estavam no Grêmio por volta das 21h30 e puderam presenciar um dos shows mais pesados e redondos das bandas emergentes, o Madame Saatan. A começar pelo toque classudo da vocalista Sammliz ao usar luvas durante a apresentação, o quarteto de Belém fez mais uma de suas performances ensurdecedoras destilando músicas de seu álbum de estréia e conquistando ainda mais gente com a curiosa mistura de heavy metal e ritmos regionais. Um show seguro onde todos os integrantes se doam ao momento único que é estar no palco e fazem bonito diante dos desavisados que, sem entender como aquela mistureba pode soar tão bem, acabam se inebriando pela qualidade e originalidade.

Madame Saatan – “Gotas em caos” @ Festival Demo Sul 2008 (Londrina/PR) from Urbanaque on Vimeo.

Os locais Droogies, de influências cinematográficas inconseqüentes, vêm, a cada ano, conquistando espaço e mostrando os bons frutos de um trabalho compenetrado e sério. Percebe-se que os rapazes deram um grande salto com relação à apresentação no Demo Sul 2007 ao mostrarem-se mais maduros e soltos perante o público. Na seqüência veio o Vandaluz, quinteto mineiro de poesia musicada, com pegada literária sem igual e a presença de um declamador nato de poesia de rua. Auto-intitulados Música Poética Boêmia, o Vandaluz chega próximo de seus conterrâneos Porcas Borboletas quando a intenção é fazer música cabeça sem soar uma chatice sem-fim.

Veterano da cena curitibana, era o momento de receber Cassim (Bad Folks) e sua banda de apoio Barbária. Um rock de pegadas diferentes e inusitadas e uma bela guitarra solista. Depois, o New Ones, destaque da edição anterior do festival, continua firme e forte em sua empreitada hard punk.

Fazendo cair os queixos alheios, quem subiu ao palco e fez um dos shows mais intimistas, mas não por isso desinteressante, foi o curitibano Lendário Chucrobillyman. De nome um tanto descabido mas cultivando a parte do “lendário”, o prodigioso Klaus Koti empunhou seu violão, sua gaita e comandou a bateria numa das melhores empreitadas one-man band da atualidade. Bebendo de fontes diversas, sendo ora um mariachi ora um bluesman, Chucrobillyman conseguiu proeza ao arrancar do carrancudo público londrinense pedidos de mais música ao fim do show. Sem ter como recusar e ultrapassando o horário do show, a última mandada foi “I’m Gonna Live” para satisfação e completude de um público embasbacado pela hiperatividade do músico, figurante do movimento monobanda.

O lendário Chucrobillyman @ Festival Demosul 2008 (Londrina/PR) from Urbanaque on Vimeo.

Para encerrar aquele primeiro dia de Demo Sul 2008, a proeza desta vez ficou a cargo da organização e produção, que conseguiu levar para Londrina um grande show gringo, apresentado pelo Mudhoney. Mais uma daquelas bandas apaixonadas pelo Brasil e com um sólido repertório de 20 anos na bagagem, é desnecessário gastar argumentos para provar a importância dessa apresentação no casting do festival. Porém, vale ressaltar que o público londrinense já devia estar à espera de uma apresentação desse porte já que em outras épocas pôde conferir shows de grupos como Nada Surf e Lemonheads. Ponto para o festival, que encerrou sua primeira noite em grande estilo e teve a oportunidade de sediar o pontapé inicial da turnê sul-americana de The Lucky Ones, novo e inédito disco dos velhos grunges.

Sábado, dia 12 - Com expectativas ainda maiores para o segundo e último dia do evento, o show inicial já foi um belo pontapé para o que prometia ser o ápice do festival.

Desta vez um septeto (!) fez as honras de abrir a noite, ao ostentar um hillbilly massacrante, de contrabaixo marcante em clima de faroeste. Muita virilidade despejada através do vocalista que em músicas como “Amor Bandido” conseguia fazer rimas temáticas e muito ricas. À parte da sonoridade, o Fabulous Bandits é formado por integrantes de diversas bandas de Londrina que dividem um gosto excêntrico por instrumentos inusitados como guitarra havaiana, carrom e banjo.

Fabulous Bandits @ Festival Demosul 2008 (Londrina/PR) from Urbanaque on Vimeo.

A seguir, em outra praia completamente diferente, foi a vez dos sorocabanos The Name, de influências pós-punk com bateria eletrônica, comandar os 30 minutos seguintes de festival. Seguidos pela VI Geração da Família Palim do Norte da Turquia, vê-se por que a qualidade dos shows foi ponto alto pro Demo Sul: diversidade nunca é demais para os festivais independentes.

A Família Palim que o diga. Chutando a tampa do passado BRock, os descendentes de Abdul Palim fazem um show curioso. Apesar dos rótulos e do som caracteristicamente calcado no antigo rock nacional, o grupo invoca suas raivosas forças para que matem todos os ídolos dessa pré-história roqueira, em especial a Tony Garrido. Depois de terem lançado um disco homônimo e de participarem da edição 2006 do Demo Sul, a grande família trabalha na divulgação de seu segundo disco, Por que no te callas?, com escrachadas faixas intituladas “Indie demais” e “Ela não quer usar a burca”.

Depois veio o consagrado trio instrumental gaúcho Pata de Elefante. Apesar da tradição e importância do trio, foi difícil assistir ao show sem ter aquela idéia de que somente os aficionados por instrumental conseguem prender a atenção por mais de 5 minutos. De Curitiba veio o quinteto Subburbia, explicitamente um pop moderno moldado pelo rock 00 de pegada sintetizada e futurista. Destaque para as meninas da banda que dão o toque “exportável” ao grupo. Banda para prestar atenção e torcer a favor.

Fugindo completamente à regra das tendências, era a vez de receber os inigualáveis Terra Celta. A fusão dos ritmos nórdicos com a astúcia e a carisma do vocalista, Elcio, surtem o mesmo efeito dos shows de Móveis Coloniais de Acaju. Mas muito mais interessante, o grupo guia com exatidão e domínio total seu séquito de fãs londrinenses que não pára 1 segundo de acompanhar as peripécias dos seis integrantes. Uma pena que o show só pôde ter meia hora de duração, já que a banda consegue entreter por duas horas sem ser cansativa. No entanto fomos saudados com uma música nova, “Arrigo’s History”, no melhor estilo Terra Celta de ser. Show para ver, não para falar. Ah, como seria bom se eles fossem convidados para outros festivais…

Terra Celta @ Festival Demosul 2008 (Londrina/PR) from Urbanaque on Vimeo.

Mudando de ares, foi a vez do Batuque Muamba Fun engrossar o caldo das bandas locais junto com a próxima atração. Prata da casa, o Trilobit subiu ao palco Demo Sul para mostrar como se fazer rock intergaláctico em três pessoas (antes, eles contavam com a astúcia do mixer Moröder), com guitarra, baixo, bateria e, agora, um laptop. Mas o show continua bonito e alto, eletrônico no talo, com a presença irreverente de General Urko, estrela do incrível e sagaz game Pro Evolution Urko 2009. No repertório, as conhecidas “Futebol” e “Sexy Groove Machine” e as inéditas “Dali Google”, “Bad News” e “Procurando Memo”, esta com sampler de curso de memorização. O Trilobit se prepara agora pro lançamento do primeiro disco intitulado Tutorial e promete continuar as explorações pela Terra.

Trilobit – “Futebol” @ Festival Demosul 2008 (Londrina/PR) from Urbanaque on Vimeo.

A exemplo das edições 2006 e 2007, este ano o festival também contou com a presença de um grupo argentino. Desta vez em outra praia, o Palangueto, duo eletrônico de Buenos Aires, veio dar o ar da graça com seu som ora etéreo ora drum’n’bass minimalista em teclado e guitarra. A favor das intervenções midiáticas, o guitarrista e vocalista Mr. Jave empunhou durante parte do show sua câmera de vídeo e filmou o público, que assistia passivamente à apresentação dos hermanos.

Para encerrar as atividades 2008 do festival, Londrina recebeu a sempre grande Nação Zumbi. Divulgando o mais recente trabalho Fome de Tudo, os inventivos recifenses trouxeram toda sua política e crítica social para o palco, acompanhados em coro pela massa que se amontoou para ver de perto a semente mais forte do maracatu.

Apostando cada vez mais no crescimento emergente e em sua própria gestão, o Demo Sul aponta para uma nova direção, que é se tornar em breve um dos festivais independentes mais sólidos e competentes da cena. Isso sem precisar de politicagem ou troca de serviços. Que continue assim.

TEXTO:
Mariângela Carvalho FOTO: Cirilo Dias

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