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Ronaldo Lemos explica o tecnobrega

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O tecnobrega é uma das manifestações culturais mais bem sucedidas do mercado nacional. E para provar isso, Ronaldo Lemos (idealizador do portal colaborativo Overmundo, ao lado de Hermano Vianna) e Oona Castro, lançaram o livro Tecnobrega – O Pará reiventando o negócio da música, dentro da coleção Tramas Urbanas.

O livro mostra como a periferia paraense conseguiu se organizar para desenvolver uma indústria musical local forte, baseada em ações simples que incluem divulgação, distribuição, e o mais importante, o uso inteligente da tão temida “pirataria”, que no Pará ganhou outro nome: proliferação popular de propriedade intelectual.

Além de ter fundado o Overmundo, Lemos ainda encabeça no Brasil a ONG internacional Creative Commons, que defende o copyleft, nome usado para iniciativas que seguem o sentido oposto ao ultrapassado termo copyright.

Aproveitando o lançamento de Tecnobrega – O Pará reiventando o negócio da música, o Urbanaque conversou por email com Ronaldo Lemos, que falou um pouco mais sobre o crescimento do tecnobrega, mercado fonográfico nacional e iniciativas como a do Espaço Cubo e Circuito Fora do Eixo. Confira:

Urbanaque – Porque vocês escolheram o tecnobrega para ser tema da pesquisa?
Ronaldo Lemos - Escolhemos o tecnobrega por causa do uso intensivo da tecnologia, da inovação constante da cena e por causa do modelo de negócios, que é também inovador. O tecnobrega é quase um “tipo ideal” que representa o que está acontecendo na produção musical não só do Brasil, mas do mundo. Nesse sentido, ele é um ótimo símbolo de como as periferias globais estão se apropriando da tecnologia para produzir autonomamente suas próprias redes e conteúdos culturais.

Qual a importância de uma pesquisa como essa pro mercado brasileiro, mas principalmente, pra música paraense?
A importância é enorme. A pesquisa comprovou na prática uma hipótese que muita gente (como o Hermano Vianna) já desenvolvia desde o começo dos anos 2000. Essa hipótese é de que tanto o eixo criativo quanto o eixo econômico da música brasileira havia se deslocado dos centros para as periferias. A vitalidade tanto econômica como criativa de cenas como o tecnobrega ou o funk carioca deixam para trás muito do que estamos acostumados a enxergar como elemento central da música no Brasil, como as quatro gravadoras majors, Warner, EMI, Sony-BMG e Universal, que perdem a cada momento sua importância econômica e simbólica.

É possível aplicar esse modelo usado na música paraense em outros locais? É possível utilizar isso no rock, por exemplo?
É totalmente possível. Aliás, a relevância da pesquisa reside no fato de que essas cenas emergentes podem ensinar muitas lições a outras cenas mais tradicionais. A principal lição é a inovação: o tecnobrega se transforma a cada momento, tanto nas formas de produção da música, incorporando o que há de mais novo em tecnologia; nos modelos de negócio, que incorporam desde anúncios aos CDs até a aliança de divulgação e vendas com os camelôs; quanto especificamente com relação ao conteúdo musical: a cada dia surgem novos gêneros dentro do tecnobrega, como o eletro-melody, o cyber-tecnobrega, o brega melody e assim por diante.

O que você acha de iniciativas como a do Espaço Cubo, Circuito Fora do Eixo e Abrafin?
Acho iniciativas simplesmente espetaculares. Há uma amadurecimento muito rápido dos circuitos musicais no Brasil e o pessoal do Circuito Fora do Eixo, da Abrafin e do Espaço Cubo estão fazendo um trabalho heróico. Sempre que posso vou aos eventos para prestigiar (e me divertir também, obviamente). Eles também fazem parte de como o eixo da produção musical brasileira está se descentralizando e mudando de mãos. O mais importante para essas iniciativas é erguerem a cabeça e seguirem em frente, pois podem ter certeza de que vão herdar a responsabilidade pelo futuro da música no Brasil.

O tecnobrega pode ser comparado ao Funk Carioca ou ele é mais estruturado que a música da periferia do Rio?
Ambas as cenas possuem muitas semelhanças: inovação criativa permanente, aliança com os camelôs para divulgação e venda das músicas e dos DVDs, uso de tecnologia de ponta, força econômica extraordinária. É claro que há diferenças em como cada uma das cenas se organiza. Por exemplo, o funk carioca hoje é um gênero nacional, muito embora ainda ganhe o adjetivo “carioca”. Mas acho que as semelhanças estruturais são mais do que as diferenças fortes.

A música da periferia está se mostrando mais adaptada ao novo modelo de mercado do que as grandes gravadoras?
Certamente. A gravadoras não inovam desde o lançamento do CD na década de 80. Essa foi a última grande evolução por parte delas. Para se ter uma idéia, para vender música online foi preciso uma terceira empresa, que nada tinha a ver com o mercado da música, entrar no mercado: a Apple. As gravadoras vem há quase uma década perdendo sucessivamente oportunidades de negócio. Perderam a chance de fazer um acordo com o Napster, depois perderam a chance de fazer o mesmo com o Grokster, Kazaa e congêneres. E perderam praticamente todo o mercado de música digital para a Apple. Sem inovação não há como sobreviver. E não adianta culpar a pirataria pela crise.

Qual o papel do Estado nesse novo mercado musical brasileiro?
O primeiro papel é simbólico, de reconhecer que essas cenas são o carro chefe da música brasileira de hoje. Todos os grandes sucessos realmente populares estão vindo das periferias, muitas vezes sem qualquer suporte da mídia tradicional. O outro papel é econômico: é preciso levar a sério a idéia de “economias criativas” e dar os incentivos certos para que haja um diálogo entre o mundo da informalidade e o da formalidade. O grande desafio dessas cenas é hoje a informalidade. Quanto mais o Estado promover o diálogo entre o mundo formal e o informal, sem perder as flexibilidades e a inovação, maior será o potencial de institucionalização de uma rede criativa sem precedentes, que pode alcançar não só todo o país, mas também ganhar o mundo. Tem muita música boa vindo das periferias brasileiras, como muitos DJs e artistas bacanas já descobriram, como o Diplo, Paul Devro, Wayne Marshall e outros.

Na questão do direito autoral, ainda é possível ganhar dinheiro vendendo música ou está mais fácil a banda adquirir sua renda de shows?
É possível ganhar dinheiro com música sim, incluindo a parte da composição. Para isso, será necessário reformar o direito autoral, fazendo com que o processo de licenciamento para usar e vender as faixas seja bastante simples. O direito autoral do jeito que está encontra-se travado. Quem tenta pedir autorização para usar uma única música sequer sabe disso, é um verdadeiro inferno. Traduzindo em termos econômicos, os ‘custos de transação’ são altos demais e com isso há poucos negócios sendo gerados com música. É preciso destravar isso, gerar novas formas de licenciamento como as blanket licenses, permitir o dowload ilimitado de conteúdo, sem travas tecnológicas e coletar uma taxa mensal razoável para isso. A música precisa se aproximar economicamente do modelo de serviço, como água, luz, e deixar de lado o modelo de mercadoria, vendida individualmente. Só assim ela voltará a fazer sentido econômico em si.

Como rolou esse convite para integrar a coleção Tramas Urbanas? Vão rolar outros lançamentos?
A coleção Tramas Urbanas é um projeto muito bacana da editora Aeroplano, pilotada pela Heloísa Buarque de Hollanda. Acompanho o trabalho dela há algum tempo e ficamos muito honrados com o convite. Há um outro livro sendo escrito agora, que vai tratar das lan-houses e de como estão se tornando pontos de disseminação cultural em todo o Brasil, baseado em uma pesquisa que estamos terminando para a FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) em Olinda (RE), Salvador (BA), São Paulo e Rio. Se tudo der certo, até o final do ano estará publicado.

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2 Responses to " Ronaldo Lemos explica o tecnobrega "

  1. [...] por vontade dos autores, que valorizam a distribuição gratuita. Um dos exemplos que dou é o tecnobrega brasileiro. Não é pirataria, porque os autores autorizam os camelôs a reproduzir e vender os CDs sem lhes [...]

  2. [...] por vontade dos autores, que valorizam a distribuição gratuita. Um dos exemplos que dou é o tecnobrega brasileiro. Não é pirataria, porque os autores autorizam os camelôs a reproduzir e vender os CDs sem lhes [...]

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