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Apanhador Só: integrantes esquadrinham o álbum de estreia

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Quem restringe a criatividade do quarteto gaúcho Apanhador Só à bem sacada utilização de percussões inusitadas, como a roda de bicicleta que virou o símbolo da banda, certamente nunca se aprofundou no trabalho musical deles. Trabalho este de verdadeiros artesões da melodia como demonstra o recém-lançado e tão aguardado disco de estreia (homônimo), em que rock, mpb, country music e tango surgem nas músicas e surpreendem o ouvinte, também bombardeado por inúmeras imagens mentais lançadas pelas letras sofisticadas. Aproveitando o lançamento do disco e a euforia adquirida depois de um processo de ansiedade pela sua elaboração, convidamos o vocalista Alexandre Kumpinski e o guitarrista Felipe Zancanaro para esquadrinhar num faixa-a-faixa seu primogênito.



1. Um Rei e O Zé

A faixa que com certeza gerou mais polêmicas dentro do processo de pré-produção e gravação do disco. A canção foi composta como um voz-e-violão bem tranquilinho. Assim, meio samba quadrado do Tom Zé. Depois, até tomar essa roupagem com um arranjo meio esquizofrênico, foram muitas horas de ensaio e discussão, porque ninguém achava que a música estava tão boa quanto poderia ficar. A gente achava que tinha tornado ela um Frankenstein (o que de alguma forma fizemos), mas depois percebemos que isso não é necessariamente ruim. No final das contas, muito por causa dessa heterogeneidade, a música acabou sendo escolhida como primeira faixa, já que de alguma forma ela representa a heterogeneidade do próprio disco.


2. Pouco Importa

Era a faixa 3 do Embrulho Pra Levar, nosso primeiro EP. Como principal novidade, tem agora uma segunda guitarra, um pouco soturna, que dialoga bem com o riff e com a harmonia que já existiam antes. Além disso, a qualidade técnica da gravação contribuiu bastante pra que a gente gostasse mais dessa versão do que da anterior.


3. Prédio

Uma das músicas que mais cresceu durante as gravações. A gente gostava dela, mas passamos a gostar muito mais depois de vê-la criando corpo em estúdio. Os timbres da batera nos agradam bastante, além das várias texturas criadas pelas guitarras e escaleta. A letra é bem simples e a gente gosta do jeito como ela partiu de uma ilusão ótica pra acabar virando canção. Acabou tendo um clima de misturar enquadramentos, pontos de vista, andamentos e filosofias tudo numa tacada só. E guarda referências que nos são caras.


4. Maria Augusta

Talvez a mais conhecida das nossas músicas até agora. Apesar de tocar ela há muito tempo, nunca chegamos a enjoar. Ganhou uma introdução doidona, a antiga linha de baixo nas estrofes virou uma nova linha de guitarra e tentamos não nos prender muito na versão do Embrulho…, mas também não encontramos necessidade de mudar grandes coisas nela. Deve ser a música mais dançante do disco.


5. Peixeiro

Guarda o verso-manifesto do Kumpinski: “Ouve minha voz no discman / Fica encucada / Não sabe se eu falo sério ou palhaçada”, que meio que ilustra a própria letra da música (começa debochada e termina dramática). O arranjo também entra nessa, começando mais saltimbanco e acabando mais ruminante. E no finalzinho entra aquele country safado, que é massa. A letra do refrão foi a primeira coisa a surgir da música. Era pra ser um Poema no Ônibus (rola aqui em Porto Alegre um concurso pra publicar versos nas janelas dos coletivos, vejam só). O Kumpinski e o Marcelo Noah fizeram os versos “O nosso amor, uma garrafa de vinho / virando vinagre devagarinho” e mandaram pro concurso em nome do Marcelo Souto (amigo nosso) só pela diversão de imaginar a cara dele lendo um poema que não era dele publicado na janela. Acabou que os versos não passaram no concurso e serviram de refrão pra essa canção.


6. Bem-me-leve

A única música cuja personagem é feminina. A percussão no início é feita com a roda da bicicleta que acabou virando o nosso logo. Foi a Carina Levitan, que fazia parte da banda antes de ir morar em Londres, quem gravou. Ela veio passar um mês no Brasil e gravou praticamente todas as percussões do disco. Ela trabalha muito tirando som de sucata e é engraçado ler na ficha técnica os instrumentos que ela usou.


7. Nescafé

O mesmo Marcelo Souto da história de “Peixeiro” é um dos 4 compositores de “Nescafé”. Ian Ramil, Diego Grando e Alexandre Kumpinski são os outros 3. O processo de composição foi caótico, mas no fim achamos que deu certo. Ela apresenta situações cotidianas fáceis de imaginar, mas narradas com pitadas nonsense. Quanto ao som, é curiosa a guitarra que o Fruet gravou com um baita timbre George Harrisson, as guitarras estacatas do Felipe com o pitch alterado e aquela tocada com slide no final da música. A voz no terceiro refrão se afunda em reverb, o que foi a última coisa que a gente fez na mixagem antes de mandar o disco pra masterização.


8. O Porta-retrato

Parceria com a banda amiga Bazar Pamplona, de São Paulo. Os vocais são divididos entre o Kumpinski e o Estêvão Bertoni, vocalista deles. A guitarra dedilhada é espelhada na guitarra do João Victor da versão original que foi gravada no apartamento dos guris da Bazar em 2007. O delay de fita usado nas guitarras criou uma atmosfera etérea interessante. É uma música que joga imagens pro ouvinte ir montando na cabeça uma espécie de um mosaico. Tem um lance de memória de infância, com um quê de melancolia, de nostalgia. Dá pra imaginar o Estêvão pequeninho, com um boné mal encaixado na cabeça, se babando com um picolé e não conseguindo se enturmar no litoral paulista. Mas tudo muito sério.


9. Balão-de-vira-mundo

Uma das música mais pesadas do disco. Tem uma mistura de milonga, samba, payada, mas é tocada com guitarras bem distorcidas e tem um tango tipo Piazzolla no meio que foi pilha do Fruet e fechou bem com a música. Se trocarmos a primeira letra da primeira palavra com a primeira letra da última palavra do nome da música (e depois trocar o último “o” por um “a”) dá pra dar umas boas risadas, se estivermos num dia tranquilo.


10. Jesus, o Padeiro e o Coveiro

A voz dessa música foi gravada com um microfone dinâmico ligado direto num amplificador. E a guitarra que parece um scratch foi gravada com o primeiro pedal que o Fruet ganhou na vida dele: um Pider, fabricado no Brasil na década de 90. É com certeza o pior pedal de distorção que qualquer um já ouviu. Ele liga direto na tomada com uma flecha, como se fosse um liquidificador. No mais, a música é basicamente uma baita linha de baixo e uma bateria pulsante, com uma porrada de efeitos de pedais de guitarra jogados por cima. Pagã.


11. Origames Over

Ctrl+C, Ctrl+V, papel, dedos, jogos de palavras, melodia se dobrando e a única faixa na qual gravamos um violão.


12. Vila do ½ dia

A música mais antiga do disco. A gente não sabia direito o que fazer com ela, porque muito do seu charme vinha da estética lo-fi da versão que tava gravada no “Embrulho”. Tentamos de tudo e nada dava certo. Tava ficando preta a coisa. No fim, gravamos ela de qualquer jeito e mandamos o Fruet se virar na mixagem. Ele não dormiu bem por meses, mas no final o céu voltou a ser azul quando os coros foram gravados e umas guitarras novas surgiram. Tem percussão de sacola plástica que tenta imitar uns tamborins ali na parte do meio, que é uma coisa muito estranha e que nos faz gosto.


13. E Se Não der?

Última música a entrar no repertório do disco e, coincidentemente, última do disco. Partiu de parte de um poema do Diego Grando e não era tocada pela banda ainda antes da pré-produção do disco. Tem uns riffs meio Cake que fazem as cordas dialogarem e umas rouquidõezinhas na voz que não são costumeiras. O improviso no final era pra ter sido editado, mas no fim das contas gostamos do caos que se criou e deixamos tudo ali, conforme se tocou. É um final ortodoxo pra um disco de rock, com solos de guitarras quase infinitos, mas acabou sendo uma forma de descarregar toda a ansiedade que tínhamos em relação ao próprio disco. E tem também o charme de fechar o primeiro álbum da banda nos perguntando: “E se não der?”.


Você pode fazer o download gratuito do álbum de estreia dos gaúchos no site oficial da banda. Não perca tempo!


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[TEXTO: LEONARDO DIAS PEREIRA / FOTO: RAFAEL ROCHA]

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3 Responses to " Apanhador Só: integrantes esquadrinham o álbum de estreia "

  1. [...] Zacanaro escreveram imperdível faixa-a-faixa do novo disco do Apanhador Só para o Urbanaque. Dá uma olhada. Leonardo Dias, um dos editores do site, escreveu: “Quem restringe a criatividade do quarteto [...]

  2. [...] aqui o esquadrinho faixa-a-faixa pelo vocalista Alexandre Kumpinski e o guitarrista Felipe [...]

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