
Estar em Seattle, extremo norte dos Estados Unidos, e sendo fã de música desde sempre deve ser uma experiência semelhante com a de chegar a São Tomé das Letras para aqueles que perseguem a fé. A cidade que um dia deu suporte e serviu de principal cenário para uma das últimas grandes revoluções musicais antes da Internet e do MP3 tem características únicas e singulares, o que exprime mais identidade ainda ao fato de que visitar tal Meca do rock pode ser um momento ímpar na vida.
Tão moderna quanto possível e assim mesmo guardando muitos traços de cidade do interior, a população de Seattle é em sua maioria jovem, bonita e inteligente – pudera, a cidade é lotada de universidades, faculdades, centros de arte e música, obras de arte por todos os lados. Os happy hours estão lotados de pessoas aproveitando o final dos dias, que, diferente dos estereotipados dias chuvosos e frios, são longos e estão ensolarados por conta do verão na América do Norte.
Com tanta movimentação e interesse por motivos culturais, Seattle está sempre promovendo festivais, feiras e outras atividades que envolvem a massiva participação do público. Por todos os lugares por onde se anda é possível ver as manifestações do quanto à cidade é evoluída, sem perder seu instinto rústico e clássico.
Por esse e por vários outros motivos (como continuar com a crescente evolução e proliferação de boa música) o famoso bairro de Capitol Hill, perto de downtown, abriga desde 97 um dos mais famosos Bloc Parties da música independente americana. Acontecendo no coração do bairro, entre as ruas principais como Pike, Broadway e Harvard Avenue, alguns quarteirões são fechados e transformados em palcos com a presença de bandas locais e alguns headliners de alta categoria.
A oportunidade de vivenciar um dia desse famoso Bloc Party foi uma experiência incrível e sem precedentes – mesmo tendo na bagagem tantos festivais. A atual cena é prolífica, diversa e deveras interessante, transitando pelo rock, electro, lo-fi, instrumental e algumas outras surpresas.
No domingo (25), último dia do Caphill Bloc Party, os portões abriram às 13h30, tendo início as atrações pouco depois disso. Distribuídas por um total de quatro palcos, essas atrações podem desenhar um reflexo muito bom do que o cenário musical está produzindo, bandas que não estão no mainstream nem em grandes circuitos, mas que definitivamente representam o espírito de uma toda uma cultura, passado musical e evolução contínua, exatamente como temos nossa cena no Brasil.
A primeira banda que vi foi o punk metal local Steel Tigers of Death. Encabeçados pelo baterista Remington Steel, o comedy-punk dos caras é escrachado e bem poderoso, com riffs classudos, mas agressivos na medida. Em músicas como “X-Ray”, os caras pegam fogo e levam todo o público com eles. Cheios de graça, desde a escolha de figurino até a atitude no palco fazem deles um nome bem corrente no circuito da cidade. O público local parece estar convencido de que música besteirol é sempre uma boa opção para apaziguar propostas mais prolixas, portanto o show teve imensa participação da platéia e interatividade.

Depois disso, segui para o palco Vera, onde acontecia o show do Pepper Rabbit, algo como um carnaval cacofônico de sons variados, desde um piano, flauta doce, samples e vocais condensados e abafados. A proposta é boa até, mas cai sempre na chatice de parecer uma grande piada interna sendo que não tem nada de engraçado. A proposta está lá e a capacidade de realizá-la também, mas é como se eles tivessem influências de Of Montreal, Wilco e Mogwai, mas usassem as partes mais tediosas de cada.
Pepper Rabbit @ Seattle 2010 from Urbanaque.com.br on Vimeo.
Após isso, segui para o palco principal para sacar qual era a do Mad Rad, que, descobri depois, é uma das bandas em ascensão por aqui. A referência mais próxima para toda a anarquia sonora que vi é como se o Jumbo Elektro entrasse num strip club e se utilizasse de toques de glam rock em sua música. Os vocais são mega sofisticados, futuristas no talo, exalando nada mais que originalidade. P Smoov, o dono dos beats e deliquência generalizada, é daqueles que têm a arte na alma e consegue expressá-la de maneiras nada convencionais. Sem contar que o Mad Rad é uma big band! O baterista mais louco que vi durante o Bloc Party, um violoncelo guiando os graves e seis malucos pulando e entretendo sua plateia sem respirar um segundo.
Foi simplesmente ótimo ver um show como o deles, com o tipo de música que eles fazem – o que me fez sair à procura do disco assim que o show terminou.
A esta altura, o festival já contava com significativo público, todos querendo seu lugar próximo ao main stage para ver os headliners do dia, mas ainda teríamos duas bandas até lá.
A seguinte a se apresentar, Real Estate, também transita bastante entre o lo-fi e o alt country, usando referências básicas e simples. O trio de New Jersey parece estar bem concentrado na missão de tentar expandir seu próprio destino, indo além do independente. Como público sempre é bom indicativo da notoriedade de bandas, deduzo que os caras estão indo na direção certa dada a quantidade de gente cantando e acompanhando as canções simplistas e calmas, que falam sobre praias no fim de tarde e amores passageiros.
A essa altura eu já me encontrava quase entediada de ver apenas propostas que transitam pelos diversos estilos de rock quando, para minha surpresa, os próximos no main stage eram a dupla The Blue Scholars, também de Seattle. Um rap distinto, orgânico e muito intelectual.
Formado pela dupla Geo e Gramci, os Blue Scholars são o que Seattle tem de melhor produto em termos de hip hop depois de Sir Mix-a-lot (dizem os locais), mas posso perceber claramente por que. Calcando as rimas na modernidade e fazendo música “orgânica” (porque afinal de contas o mundo agora é de produtos orgânicos), eles cantam sobre a sociedade, a evolução humana e a liberdade de expressão sem cair nas redundâncias rotineiras daqueles que têm a posse de um microfone como instrumento para guiar pensamentos. É um som visionário, de beats e samples bem construídos e que se encaixam perfeitamente ao flow e às rimas. Eles também me fizeram sair à procura de seus discos e você pode entender um pouco do que tento dizer vendo o vídeo abaixo.
Blue Scholars @ Seattle 2010 from Urbanaque.com.br on Vimeo.
Havia muita expectativa no ar para que finalmente fosse a hora dos headliners fazerem o trabalho de dar fim ao festival. Enquanto o show não começava e os roadies preparavam o palco, o prefeito de Seattle, Mike McGinn, subiu para falar ao jovem público que a missão da cidade no mapa da música mundial deveria continuar e que sempre existirão propostas como o Bloc Party, apoiadas pela prefeitura local e patrocinadas por órgãos estaduais. Que sorte a deles! E ele é um prefeito muito simpático e jovial por sinal.
Enfim, era o momento de ver no palco o grande Dead Weather, em sua mais corrente turnê de divulgação do disco Sea of Cowards. O público se espremia e se apertava, tentando pegar o melhor lugar possível. Quando os quatro membros entraram no palco, toda a ansiedade que a expectativa carrega veio à tona assim que foram entoados os primeiros acordes que levariam à primeira música, “60 Feet Tall” – é, começou quebrando tudo.
The Dead Weather – “Die By The Drop” @ Seattle from Urbanaque.com.br on Vimeo.
Na sequência, só petardo: “Hang You from the Heavens”, solo de Jack White em uma versão muuuito sombria de “You Just Can’t Win” (Van Morrison), “I Cut like a Buffalo”, “Die by the Drop”, “Treat me Like Your Mother”, “No Horse”, “The Difference Between Us”, “So Far From your weapon” e a apoteose performática de White e Alison dividindo o microfone em “There Will Be Enough Water”. Eles estavam uivando como lobos e era de arrepiar ver os dois em tal sintonia.
The Dead Weather – “I Cut like a Buffalo” @ Seattle 2010 from Urbanaque.com.br on Vimeo.
O bis também veio com mais porradas, provando, com todas as qualidades possíveis porque Jack White é um dos gênios do rock moderno e porque o Dead Weather é uma das maiores bandas desses primeiros 10 anos de século 21.
Depois de vê-los em San Francisco no amplo Warfield Theater no dia 22, eu também estava uivando como lobo ao vê-los mais uma vez, e de tão perto! Presenciar algo tão americano como um Bloc Party numa cidade tão emblemática como Seattle me fez ter o sonho mais musical de toda a minha vida naquela noite. E que noite!
[TEXTO, FOTOS e VÍDEOS Mariângela Carvalho, de Seattle]










Esta era uma festa grande bloco. Eu estava lá em Seattle. Se você gosta Blue Scholars, eu sugiro que você verifique, também, fora do Mercado Comum, também com DJ Sabzi. Boa comunicação e manter a promoção da música inteligente e consciente.