“Mas bah, tchê!”, diz Paul McCartney, rindo como uma criança que está prestes a aprontar. A apresentação já caminha para sua metade e neste momento não há uma só alma em meio à multidão de 50 mil pessoas que lota o Beira-Rio que não esteja como aquele senhor com jeito de menino: sorrindo.
Mas o que fez aquela noite de domingo (7/11) ser inesquecível foi a forma como Paul fez com que sentíssemos, em apenas três horas, o que muitas vezes não conseguimos sentir em uma vida. E percebemos que o que aconteceu foi algo além das palavras. O mais próximo que conseguiríamos chegar de uma definição seria dizer que ali, às margens do Guaíba, estava sendo reescrita a história de cada uma daquelas pessoas presentes.
Logo no início, com “Venus And Mars/Rock Show” e “Jet” você percebe que o jogo já está ganho. Mas nada como uma canção dos Beatles para colocar tudo abaixo, certo? Surgem os primeiros acordes de “All My Loving” e o chão treme. Na seqüência, “Drive My Car”, “Highway” e “Let Me Roll It/Foxy Lady”, servem para mostrar aos mortais o que é possível fazer com uma guitarra.
Paul McCartney – “Jet” @ Porto Alegre 2010 from Urbanaque.com.br on Vimeo.
Como estamos falando de Paul McCartney, o ex-beatle senta ao piano e despeja uma versão linda de “The Long And Winding Road”. Se torna impossível segurar as lágrimas que começaram a escorrer timidamente quando Paul cantarolou “Close your eyes and I’ll kiss you / Tomorrow I’ll miss you”.
Em seguida, entre uma homenagem e outra (“My Love”, para “sua gatinha” Linda e “Here Today” para o amigo John) um mini set acústico de fazer inveja: “I’ve Just Seen a Face”, “And I Love Her” e “Blackbird”. Só esses 15 minutos já pagariam seu ingresso. “Dance Tonight” e “Mrs Vandebilt” – assim como “Nineteen Hundred and Eighty-Five”, “Let ‘Em In” e “Sing The Changes” – ajudam a provar que seria improvável não fazer um show fantástico com todo esse repertório. Já “Eleanor Rigby” aparece irretocável e deslumbrante. Você chora copiosamente. Do contrário, não tem coração.
Paul McCartney – “Here Today” @ Porto Alegre 2010 from Urbanaque.com.br on Vimeo.
Em “Ram On” você respira e pensa que aquele senhor lhe dará alguns minutos de folga, pois simplesmente não há mais de onde tirar forças. Ingênuo, afinal, no palco está um dos maiores (se não o maior) músico desse negócio que costumamos chamar de rock’n roll. “Something” começa com Paul sozinho no palco e com as luzes apagadas. Na segunda parte da canção o palco ganha vida e o telão revela dezenas de fotos de George Harrison. Emocionante é pouco.
Paul McCartney – “Something” @ Porto Alegre 2010 from Urbanaque.com.br on Vimeo.
Paul nem precisaria se esforçar para interagir com o público. Mas se esforça: “Ah, eu sou gaúcho!”, brinca. E o trecho final é simplesmente apoteótico. Uma grande versão de “Band on The Run” serve como guia para logo em seguida passearmos pelo clima dançante de “Ob-La-Di, Ob-La-Da” e por toda a densidade de “Back in the U.S.S.R.”, “I’ve Got A Feeling” e “Paperback Writer”. Você não percebe, mas está chorando sem parar a 30 minutos.
Em meio a esse turbilhão de sensações “A Day In The Life” e “Give Peace A Chance” se completam de forma indescritível. Não há como não se surpreender com sua energia e simpatia. Então Paul novamente senta ao piano e começa a tocar “Let It Be”. Sua vida passa durante aqueles quatro minutos. E passa de forma tão intensa que não há como acreditar em tudo que estamos presenciando. Até todas essas emoções, literalmente, explodirem em “Live and Let Die”. Se você é fã de música precisa viver estes momentos. É experiência de vida.
“Hey Jude” fecha o show com 50 mil pessoas fazendo o coro por vários minutos até chamar Paul de volta para o palco. Seguem “Day Tripper”, “Get Back” e “Yesterday”.
Paul McCartney autografa braço de fã em Porto Alegre from Urbanaque.com.br on Vimeo.
Neste momento Paul McCartney decide dar uma olhada nos cartazes do público e um em particular chama sua atenção: uma fã pede para que ele autografe seu braço, para que ela possa tatuar a lembrança. E não é que o ex-Beatle, todo simpático, atende ao pedido da moça? Ela e uma amiga sobem ao palco e deixam muitos marmanjos morrendo de inveja.
Paul McCartney – “Helter Skelter” @ Porto Alegre 2010 from Urbanaque.com.br on Vimeo.
Pensa que acabou? Quando o riff anuncia “Helter Skelter”, Porto Alegre vem abaixo. “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “The End” encerram a melhor noite de nossas vidas. “Até a próxima”, diz. Nós acreditamos. Precisamos e queremos acreditar. No final, você até esqueceu que planejou olhar para o lado e dizer “eu te amo” ao som “All my Loving”. Não conseguiu, mas tudo bem. Fica para a próxima. Tri legal, Paul!
[TEXTO Murilo Basso FOTO e VÍDEOS Urbanaque]











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