Um senhor de 84 anos caminha pelas ruas do Queens, em Nova York, cantarolando canções pouco compreensíveis. A mistura de iodelei (gênero típico dos alpes austríacos) com rock dos anos 50 e pegada punk causa estranhamento e admiração por onde passa o eterno aspirante a rockstar.

Este é o protagonista de “Avalanche Bob”, documentário dirigido e editado pelo cineasta brasileiro Rafael Bergamaschi. O curta-metragem, que recém-estreou no festival de Clermont-Ferrand, na França, levanta uma questão que de tempos em tempos surge no mundo da música: qual o limite entre a loucura e a lucidez?

Produzido ao longo de um ano, o filme é um retrato intimista de uma mente extremamente criativa. Bob projeta seus sonhos e aspirações nas centenas de canções que ele compõe diariamente em um carcomido gravador a pilha. Os temas variam da morte ao amor, passando por super-herois, jingles para comerciais e, principalmente, músicas sobre snowboard. Mesmo sem nunca ter gravado um disco, o cantor crê que a fama mundial é apenas questão de tempo.

“Sobreviver no mundo da música não é fácil. Talvez um pouco de auto-ilusão seja necessário para seguir encontrando motivação”, opina Bergamaschi. O diretor ainda vai além. Para ele, a excentricidade geralmente é benéfica para a arte. “A melhor música e’ a que parece sair das entranhas de quem canta. Como acessar algo tão profundo se mal conseguimos deixar a realidade cotidiana que nos cerca?”, indaga.

“Avalanche Bob” está atualmente no circuito de festivais pela Europa e deve estrear no Brasil no segundo semestre deste ano.

Outros filmes que tratam da mesma temática:

“Loki – Arnaldo Baptista”. Filmado em 2008, o filme é uma biografia do músico que foi um dos fundadores da banda Os Mutantes nos anos 60. Além’ do talento, Arnaldo ficou marcado também por ter saltado pela janela de um hospital psiquiátrico. O acidente o deixou em coma por quatro meses.
“The Devil and Daniel Johnston”. Quando o cantor e compositor Daniel Johnston surgiu para o mundo da música no começo dos anos 80 havia quem o comparasse a Bob Dylan. A luta recorrente contra bipolaridade e esquizofrenia, no entanto, limitaram o alcance de sua carreira.
“Wesley Willis’s Joy Rides”. O tecladista de Chicago, nos Estados Unidos, Wesley Willis compôs boa parte de suas canções dentro de uma loja de instrumentos musicais, onde ele passava seus dias. Diagnosticado com esquizofrenia, o músico tornou-se um sucesso cult nos anos 90.