A burocracia de palco dos Arctic Monkeys

Os ingleses do Arctic Monkeys são um caso curioso dentro da história recente da música. Surgiram como mais uma grande novidade da última semana que você não pode deixar de ouvir patrocinada pela intrépida revista britânica NME, sustentaram esse peso com dois bons discos (lançados com intervalo relâmpago de um ano) e aos trancos e barrancos foram se firmando.

Depois de oito anos e mais três discos (a discografia hoje ostenta cinco títulos) a banda transita facilmente nos players dos indies de primeira hora, patricinhas e playboys, e ouvintes das famigeradas rádios rocks brasileiras, justamente as espécies que compunham a fauna de aproximadamente 20 mil pessoas (ou seriam mais?) que tomou a Arena Anhembi numa sexta-feira gelada e de garoa fina, para a ver a terceira apresentação deles em terras paulistanas.

“The only reason that you came. So what you scared for?…”. #arcticmonkeys

Um vídeo publicado por Urbanaque (@urbanaque) em

Essa era a primeira vez que os britânicos tinham uma noite só para si, sem ter que se preocupar com o tempo apertado de apresentações de grandes festivais, portanto a expectativa era de um grande show – OK, tinham os suecos do The Hives e seu show acrobático antes, mas quem se importava chegou muito cedo enquanto a maioria ficou curtindo uma fila sofisticadíssima para entrar no recinto.

Expectativa talvez se confirmou apenas para aqueles que tiveram contato com a banda no palco pela primeira vez. Não importa a situação, o lance deles é subir no palco, falar e errar no andamento das canções o menos possível, numa típica atitude mecânica e burocrática que é a marca principal quando pisam no palco. Qualquer palco.

A presença de Alex Turner ao menos parece ter se desenvolvido mais em relação às últimas vezes que passaram pelo Brasil, com o rapaz caprichando nas poses sensuais, nas passadas de mão no cabelo milimetricamente tosado, e no figurino bem apanhado de cantor de sertanejo universitário.

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A música, que é o que realmente importa, foi muito bem tratada. Tudo o que um bom fã esperava foi entregue: o início matreiro e lânguido de “Do I Wanna Know”, os grandes hits “I Bet You Look Good on the Dancefloor” e “Dancing Shoes”, a catarse instrumental de “Brianstorm”, e a intensidade crescente de “Crying Lightning”, foram executadas com perfeição e cantadas com fúria pelo público do fundão, aquele alijado (infelizmente) de um contato mais próximo para favorecer a anêmica área vip.

A espera por essas músicas, entretanto, parecia eterna, todas diluídas num setlist montado para criar poucos picos de emoção dentro de um poço de pasmaceira de canções arrastadas. A impressão geral foi a de que os britânicos ainda não sabem exatamente o que fazer com toda a sua discografia, algo que reflete também no próprio desenvolvimento da banda. Eles precisam decidir urgentemente se querem brigar pelo título ou se vão se contentar em apenas figurar no meio da tabela do disputado campeonato das grandes bandas de rock da atualidade.

[TEXTO Leonardo Dias Pereira FOTOS Stephan Solon/Move Concerts]

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