Axl Rose exerce seu poder sobre os fãs de São Paulo

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Para todos os efeitos, Axl Rose ainda é um astro do rock – ou pelo menos vive a vida de tal forma. A banda que carrega solitariamente ao redor do mundo, o Guns n’ Roses, possui alguns dos mais potentes hits do classic rock das últimas três décadas, o que lhe garante encher arenas mesmo sem lançar nada verdadeiramente relevante em 23 anos. Cada aparição sua, seja no palco ou em um boteco bebendo Itaipava, é um evento digno de nota em redes sociais, portais de notícias ou rodas de amigos. Axl alcançou, no final dos anos 1980, graças a um punhado de riffs, uma bandana, um short de lycra estampada com a bandeira norte-americana e a “dança da cobrinha”, o status de mito e até hoje se faz valer de tal posição.

Atrasado como de praxe – realmente é importante o tempo que demorou a entrar no palco, visto que ninguém mais espera que um show do Guns comece no horário? -, Axl abriu o show de sexta, no Anhembi, em São Paulo, com Chinese Democracy, música que dá título a um dos mais lendários – graças a sua demora – álbuns da história do rock. Antes, porém, quando as luzes se apagam e o público entra em frenesi, os alto-falantes soltam far From Any Road, o tema de abertura de True Detective, motivando a piadinha ouvida perto do bar de que não seria nem um pouco ruim ver um episódio da série enquanto o show não começava – a febre das séries está tão gigante assim!?. Chinese Democracy, a música, recebe a resposta padrão de todas canções do álbum que aparecem no setlist: silêncio

A idade média do público não deixava dúvida do que era esperado naquela noite: clássicos. Logo na segunda música, o primeira nota de Welcome to the Jungle ressoando pelo Anhembi fazia a alegria dos tiozões. O show segue na mesma pegada com It’s So Easy e Mr. Brownstone, mas demora a engatar de verdade. As diversas jams e músicas dedicadas aos membros da banda intercaladas durante todo o set não ajudam muito, apesar dos bons momentos de Bumblefoot, com sua Abnormal, e do baixista Tommy Stinson, que, ao invés de um cover do Sex Pistols (Holidays in the Sun), podia muito bem tocar uma música de sua banda, o Replacements.

As paradas, no entanto, são necessárias para o bem estar do vocalista. Apesar de manter o status conquistado há quase 30 anos, Axl já não é mais um menino – está com 52 anos – e perdeu, há muito, a voz potente que enfeitiçava adolescentes nos anos 1980. Nas músicas de Chinese Democracy o vocalista até se sai bem, mas nas velharias os agudos passam longe de serem atingidos. Nem é que a voz falhe, mas Axl, mesmo sem correr pelo palco, não tem fôlego para acompanhar os clássicos de sua própria banda. Como diria Muricy Ramalho, “a bola pune” – aqui, no caso, são os anos de excesso, mas acho que você entendeu.

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Aí, depois de um solo longo, DJ Ashba para no meio do palco e ataca o riff de Sweet Child O’ Mine e a adolescência parece estar de volta. Todo moleque que já pegou em uma guitarra – e espero que até hoje continue assim – aprendeu (ou tentou)o riff de Sweet Child of Mine, nem que fosse para falhar e descobrir que tocar Ramones é muito mais fácil. Mais uma jam vem, Axl sai novamente do palco para voltar ao piano, no centro, e interpretar November Rain, para alegria dos casais (pequeno registro: foram três beijos ao redor da reportagem, com apenas um isqueiro – próprio – levantado). Don’t Cry e Patience – introduzida com You Can’t Always Get What You Want, para delírio de alguns poucos – ainda deixam o lado romântico em alta, antes do show acabar com Paradise City e seus fogos.

No caminho para a saída do Anhembi, algumas pessoas se amontoam em uma grade atrás do palco na esperança de ver Axl, mesmo que de relance, saindo do palco – só para ser alvo de chacota do pessoal encarregado de desmontar os equipamentos. Não é mais 1987, mas o vocalista ainda exerce seu poder sobre os fãs – desde que você seja bem condescendente com a performance.

[TEXTO Tiago Agostini FOTOS Marcelo Rossi/ Divulgação]

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