Bidê ou Balde: Adeus, segunda-feira triste!

Chegou da fábrica o EP Adeus, Segunda-Feira Triste, primeiro lançamento com músicas inéditas da Bidê ou Balde desde 2005, e “aperitivo” para o álbum completo que a banda vai lançar ainda em 2011 (que está sendo gravado em Porto Alegre, no esúdio Mubemol, com produção da própria Bidê e Gilberto Ribeiro Jr).

Com seu nome tirado de uma livre adaptação do subtítulo do livro Café-da-Manhã dos Campeões, de Kurt Vonnegut, o EP contém as faixas “Me Deixa Desafinar” e “Tudo é Preza!”, que já haviam sido liberadas no fim do ano passado, mais as inéditaças “Madonna”, “(Não existe lugar) Mais Longe Que o Japão” e “VVA Decomposto (ou, Tudo Funcionando Meio Jackson Five)”. O projeto gráfico foi realizado por Gabriel Not e Leo Lage e apresenta um texto inédito do professor Luís Augusto Fischer (autor do ‘Dicionário de Porto-Alegrês’) sobre a gíria/verbete “Preza”, eternizada em música pela banda.

Além de música e texto, o EP também tem vídeo: o mini-documentário Fantasia e Descontração em Búzios, de Filipe Barros, da produtora Baxada Nacional, mostra a banda gravando o material desse mini-álbum e está incluído como faixa-interativa (algo muito anos 90!) do disquinho, que por enquanto estará a venda em shows e na lojinha virtual da banda (mande email para loja@bideoubalde.com.br), montada na página deles no Facebook (www.facebook.com/bideoubalde) e, em Porto Alegre, nas lojas Convexo, dos shoppings Moinhos, Iguatemi e Praia de Belas.

A Bidê ou Balde também está nas bancas, na capa da edição número 110 da revista Aplauso, que trás como matéria principal a reportagem deste escriba, falando (e pensando a respeito) das idas, vindas e ficadas de músicos gaúchos no sudeste brasileiro (principalmente São Paulo), desde os tempos de Elis Regina até hoje, passando por Engenheiros do Hawaii e muitos outros exemplos. Como “plus-a-mais” da coisa toda, há uma espécie de trilha sonora da matéria, representada numa coletânea com três discos repletos de raridades e tesouros, intitulada Gauleses Irredutíveis merecem Aplauso [nota da redação: Cristiano Bastos é um dos autores do clássico livro Gauleses Irredutíveis – Causos e Atitudes do Rock Gaúcho] e disponibilizada para download gratuito, com capinha e tudo, no site da revista.

Aviso: a entrevista abaixo é uma junção de papos via Facebook e Messenger. Moderno, não?!

Os envolvidos são amigos e cúmplices de longa data. formaram-se juntos em jornalismo e integra(ra)m os movimentos Vive Le Flesh Nouveau! e Testemunhas de John Lennon, este último capitaneado pelo muso-ídolo rock deles, Jairo William Caveman, um sujeito sem medo do lado podre do homem e com lindos olhos azuis, que não circula mais sobre essa Terra – infelizmente!

Cristiano Bastos says: to falando com o Leo [editor do Urbanaque que organizou essa entrevista caótica]. Ele pergunta: “Leonardo Dias Pereira diz: mas fiquei intrigado com algo, pq eles desistiram de fazer o album cheio?”. Falei que está sendo feito e que isso é apenas um aperitivo.

Carlos Carneiro says: exato!!

Cristiano Bastos says: já fala sobre isso na entrevista… disco novo…

Carlos Carneiro Says: A nossa idéia, lá pelas tantas, foi gravar um box de EPs. Era isso ou CD duplo, pois o material é numeroso, juntamos um monte de música nesse tempo todo que ficamos sem gravar. Ano passado nós gravamos “Me Deixa Desafinar”, “Tudo é Preza!” e finalizamos esse material do EP pensando em lançar outro EP em seguida. Mas as demoras e burocracias da fábrica fizeram a gente mudar de planos, esperávamos lançar esse EP ainda no fim do ano passado, mas como ficou só pra esse março, resolvemos desistir do box de EPs e partir pro formato 1 EP de aperitivo + um disco inteiro, que estamos acabando de gravar no Estúdio Mubemol, com produção da Bidê com o Gilberto Ribeiro Jr, o Juninho, um excelente animal.

Carlos Carneiro says: Já lesse o Vonnegut [Kurt Vonnegut, escritor americano] ?

Cristiano Bastos says: Tenho um aqui. ainda não li. mas sei que é foda.

Carlos Carneiro says: Bah, meu, o Café-da-manhã Dos Campeões mudou minha vida

Cristiano Bastos says: Que baita título! jejeje! L&PM [editora]?

Carlos Carneiro says: Sim, esse tem pocket! Esse e o Matadouro 5 – melhor livro sobre guerra do MUNDO!!!

Cristiano Bastos says: Baitas títulos

Carlos Carneiro says: O título é Café-da-Manhã dos Campeões – ou, Adeus Segunda-Feira Blues

Cristiano Bastos says: Bah, matou a pau! Dae que tu tirasse o nome do EP. haha

Carlos Carneiro says: Sim, foi daí que tirei o nome do EP. A frase “Goodbye Blue Monday” (do original) era o que estava escrito na bomba que jogaram em Hiroshima. E foi provavelmente daí que o New Order tirou ‘Blue Monday’.

Cristiano Bastos says: Certo

Carlos Carneiro says: E, consequentemente, daí que surgiram os Happy Mondays! Maravilha de elipse, né?!

Cristiano Bastos says: Hahahaha tudo uma linha evolutiva das palavras. Impressionante.

Carlos Carneiro says: Quando pirei nisso, tinha que usar. A Bidê comporta todas essas referências, nunca teve medo de ser cheia de referência (eu até diria que quando a Bidê mais foi entendida, ou incompreendida – pro bem ou pro mal – foi quando foi assim, reverente).

Cristiano Bastos says: Claro

Carlos Carneiro says: E isso nos transporta ao início da banda, esse lance de estampar influências na cara da coisa, fazíamos isso com Twin Peaks e David Lynch, com Sonic Youth, The Fall, RPM, Kraftwerk, Marc Bolan, isso tudo tava lá no nosso primeiro disco, escancarado, e com o tempo deixamos de fazer isso, um pouco, fomos levando nossa composição e pilha estética pra outro lado, mais ensimesmado, que é bom e importante, mas a diversão do caça-palavras de referências e influências tinha que voltar.

Cristiano Bastos says: Massa! Lembra isso na entrevista!

Carlos Carneiro says: Isso É a entrevista, Cristiano! hahaha! Qual dos Vonnegut tu tem aí? É muito viciante, tô catando todos porque ele repete personagens, situações, cidades.e detona com a cabeça da América e da civilização ocidental.

Cristiano Bastos says: God Bless You, Mr. Rosewater.

Carlos Carneiro says: Bah, esse eu não li!!! É dos primeiros! E tem o Kilgore trout já, se não me engano! Vou pegar ele emprestado quando for a Brasília, pode ser?

Cristiano Bastos says: Claro, hehe. Te dou. Original, em inglês.

Carlos Carneiro says: Lindo!!!

Carlos Carneiro says: Curtisse “Japão”? Surrealismo + diplomacia, adorei pirar nesse tema.

Cristiano Bastos says: Curti todas, hehe! Bem apropriado o tema! No meu filme [nota do escrivão: Nas Paredes da Pedra Encantada de Cristiano Bastos e Leonardo Bonfim – sobre o mais raro e caro disco psicodélico brasileiro, o ‘Paêbiru’, de Zé Ramalho e do recém falecido Lula Côrtes – que tem estreia maracada para o dia 30/4 em São Paulo] tem uma louca que diz que os desenhos da pedra foram feitos pelos japoneses. HAHAHAHAA! O Japão tá na moda, e é logo ali na Paraíba.

Carlos Carneiro says: hahahaha.

Cristiano Bastos says: Outra diz que foram os Nazis, hehehe.

Carlos Carneiro says: E tu chegou a ver o vídeo que vem com o nosso EP, “Fantasia e Desconstração em Búzios”? Visse aquele papo que eu conto, do cara que conheceu o Keith Richards no Beira Rio [estádio do Internacional de Porto Alegre]? Eu realmente ouvi isso!

Cristiano Bastos says: Hehehe! Vi sim, mas quem é?

Carlos Carneiro says: O Keith Richards? guitarrista daquela banda inglesa, os Rolling Stones, Manja? O cara me contou aquilo mesmo, disse que foi no show do Rick Wakeman.

Cristiano Bastos – Essa música “Madonna” tá bem dance! hehee! Essa gruda!

Carlos Carneiro – Hehehe, total! Ela tava perdida, a base foi gravada em 2004 na gravação do ‘Vazão’, mas não tinha letra. Daí eu pirei nessa versão boba, com letra sobre a Madonna e voz mexida em autotune, que nem esses sons que rolam nas FMs por aí, essa coisa de pop escancaradamente forjado de hoje em dia. E pirei que TINHA que ter isso, porque as coisas andam muito sérias e alguém precisa fazer bobagens ainda! É também uma forma de resgatarmos aquele bom humor do qual não fugíamos quando a banda começou e, de quebra, um pouco daquela sensação de banda começando, mesmo que já tenha 13 anos de existência!

Cristiano Bastos – A música “VVA Decomposto” tem muito grooove, parece até T-Rex, sabia?

Carlos Carneiro – Hahahaha. Afudê!

Cristiano Bastos – O Bolan tem umas faxas instrumentais bem naquele estilo. Meio plastic soul. Sério, depois até te mostro.

Carlos Carneiro – Essa base vai reaparecer no disco, numa música que tem letra feita pelo Frank Jorge (e ‘completada’ por mim), que se chama “Tudo Funcionando Direito”. O teclado que faz o riff.

Cristiano Bastos – Que viagem!

Carlos Carneiro – Mas aí o arranjo é mais New Order. E eu quero também fazer uma versão com Rap no lugar do trompete.

Cristiano Bastos – Muito bom o tshaca-tshaca, hehehe. Vai ficar doido. Até vou ouvir aqui, e imaginar, haha.

Carlos Carneiro – Eu quero chamar a versão do rap de ‘tudo funcionando meio jesus and mary chain”, hahaha. Cheguei a gravar um lance que poderia ser o “refrão” desse rap, a frase “Quero ver irene rir” do Caetano, que o Frank cita em “A Historiadora”. Uma brincadeira com o castelo de cartas de referências que une gente como a gente, o Frank, o Jorginho do trompete.

[TEXTO: Cristiano Bastos]

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