Chorão fala de filme inédito e fase mais “calma” em entrevista de 2009

Em setembro de 2009 entrevistei Chorão para o portal Abril.com. Na época o Charlie Brown Jr. estava lançando seu nono disco de estúdio, algo significativo para uma banda de rock no Brasil.

Camisa 10 joga bola até na chuva não é nem de longe um dos melhores álbuns do Charlie Brown, mas emplacou um dos hits mais pedidos pelos fãs desde que Chorão foi encontrado morto, na madrugada do dia 6 de março: “Só os Loucos Sabem”.

Foi a primeira vez que falei com Chorão e confesso que me surpreendi com sua figura. Apesar da fama de marrento, o vocalista do Charlie Brown Jr. estava bem tranquilo, passando por uma fase “calma” de sua vida, conforme o mesmo comenta.

Além disso, Chorão fala sobre o filme que estava começando a produzir, O Cobrador, que assim como o disco inédito La Família 013, que deve sair nas próximas semanas, será mais um material póstumo do vocalista do Charlie Brown na praça.

Leia a entrevista completa publicada no Abril.com:

“Poderia pirar, mas aproveitei pra acalmar”, diz Chorão sobre nova fase

Vocalista comenta nono álbum de estúdio do Charlie Brown Jr. e afirma que briga com Marcelo Camelo já é passado

Chorão tirou o ano de 2008 para repensar a vida e curtir a calmaria, ao lado da família e amigos. O reflexo deste ano “sabático”, como ele mesmo classifica, pode ser percebido nas 13 músicas de “Camisa 10 joga bola até na chuva”, nono disco de estúdio da carreira do Charlie Brown Jr. que chega às lojas de todo o Brasil.

Perto de completar 40 anos, o vocalista do grupo de Santos mostra uma postura bem diferente do comportamento explosivo que ganhou as páginas de jornal por causa de polêmicas, como o caso da briga com o Marcelo Camelo, em julho de 2004. Chorão inclusive ganhou o processo movido pelo vocalista do Los Hermanos, deixando a confusão de vez no passado.

Além do novo disco do Charlie Brown, Chorão já prepara um DVD e o sucessor de “O Magnata” (2007), longa estrelado por Paulo Vilhena, do qual foi roteirista. “O Cobrador” está previsto para ser gravado no final de 2010 e segundo o músico, tem tudo para ser melhor que seu primeiro longa.

O Abril.com conversou com Chorão em São Paulo. Acompanhado do skatista Jake Brown (vice-campeão da Mega Rampa), o vocalista do Charlie Brown falou sobre a nova fase na carreira e aproveitou para relembrar sua geração de bandas, que pra ele são melhores que as de agora.

Camisa 10 joga bola até na chuva é o nono álbum de estúdio do Charlie Brown Jr. Como você faz pra não cair na repetição?
Acho que não rola esse lance, o termo seria se reinventar, dentro da mesma proposta, mesma estética de som, sem fugir muito daquilo. Quando os caras tocam bem e gostam do que fazem, a criatividade vem na frente. O principal do Charlie Brown é ter um som próprio, que é um monte de som misturado. A cada álbum pinta inspiração, a galera tem originalidade, rola bem.

Na hora de fazer um disco novo rola pressão?
Neste disco eu não estava preocupado porque eu tirei umas férias de quase um ano pra fazer o disco. A gente ia gravar um CD ao vivo e não rolou, porque eu achei que o momento agora era de um álbum inédito. Fazer um CD ao vivo agora seria legal por causa da mídia, um monte de coisas iam pintar. Mas fazer um disco inédito era um desafio que eu topei, e como estávamos bem descansados, as músicas pintaram de forma espontânea.

Levou quanto tempo pra gravar?
Depois do Carnaval voltamos a se encontrar pra fazer um som, ensaiar. E foi nesses ensaios que começaram a pintar os sons novos. O baterista matou tudo em um dia, 13 takes sem emenda e ficou todo mundo se olhando tipo: ‘o que a gente vai fazer agora?’. O cara diminuiu o custo da gravação, mas fodeu todo mundo. Surpreendeu de forma positiva.

Tem muito reggae neste disco, né? Essa pode ser a principal diferença dos outros trabalhos? Ele está um pouco mais tranquilo?
É um álbum mais tranquilo, mais maduro em termos de sonoridade e escolha das letras. A gente fez uma seleção bem criteriosa e chegamos a conclusão que 13 músicas passavam bem o momento da banda. Por coincidência o disco teve mais reggae, e como ele tem menos músicas acabou que predominou esse estilo. Como estávamos habituados a fazer álbuns de 20 músicas não dava pra perceber que tinha quatro canções reggae, cinco hard core. Ficava umas quatro de cada estilo.

As letras refletem o momento que você está passando?
Deu tempo pra repensar minha vida toda, em termos pessoais e profissionais. E acabou refletindo muito nas letras. Foi um momento onde eu poderia ter aproveitado pra pirar, mas aproveitei pra acalmar. E isso deixou o trabalho mais sereno. Não tenho pretensão de mandar uma mensagem. É um disco que tem a função de entretenimento.

Como está o público do Charlie Brown Jr atualmente? Vocês são daquela geração dos anos 90…
Pra mim foi uma grande geração. Raimundos, Planet Hemp, Chico Science, O Rappa e Charlie Brown. A gente fazia muitos shows juntos, essas cinco bandas tocavam muito junto. Quando o Charlie Brown chegou, todas essas bandas já estavam estabelecidas, o Planet foi a última a estourar. Por isso nós somos ‘Jr’, pois fomos os últimos a ser agregado.

E o público?
O público se recicla. Tem galera mais nova, adolescente, adulto. Tem gente que está com 30 e poucos anos e leva o filho. Cara que curtia Charlie Brown há 10 anos atrás, que tinha 20 anos, está com filho que já me curte. Aí leva lá o filho, é muito louco.

De onde veio o nome do disco?
É uma maneira de encarar a vida, uma metáfora. Não é bem ligado ao futebol, eu nem sou fanático por futebol. Torço pro Peixe, mas sou de boa com futebol. Meu lance é skate mesmo. É uma metáfora de como encarar a vida, de você lidar com os dias de chuva e sol da mesma forma. O camisa 10 é a referência, né? Eu quis dizer que todo mundo tem que ser camisa 10 pra poder viver bem.

O que você acha da atual cena do rock nacional?
Em termos de geração eu gosto mais da minha. As bandas eram mais ecléticas, diferentes. Tinham mais originalidade. Hoje em dia está rolando um movimento, que tem o NX Zero e várias bandas do mesmo estilo, com eles liderando essa garotada. Eu vejo com bons olhos, mas eu prefiro minha geração. A Pitty eu acho legal, ela está mais pra minha geração do que pra essa, ela é intermediaria. As meninas adoram a Pitty, eu gosto muito dela, a acho muito talentosa.

Como você encara aquelas polêmicas que envolviam seu nome, como a briga do Marcelo Camelo?
Passado cara, isso gerou muita polêmica.

Chegou a ter contato com ele depois?
Por coincidência a gente nunca mais se viu. Rolou o processo e como eu tava a maior parte do tempo ausente fazendo shows fiz uma procuração pro advogado ir nas audiências me representar. E na verdade eu acabei ganhando o processo. Ele perdeu o processo por Culpa Concorrente [quando o agente e a vítima concomitantemente colaboraram para o resultado lesivo].

Você se arrepende de ter se envolvido nessa briga?
Me arrependo sim, não foi legal pra minha imagem. Mas já é coisa do passado, superado. Ele tem a vida dele eu tenho a minha. Temos nossos amigos, não muitos em comum. Cada um tem o seu valor e a vida segue. Isso foi uma bobagem que levaram muito a sério.

Você lançou O Magnata em 2007. Já pensa em fazer outro filme?
Vou rodar um filme no final do ano que vem. Vai se chamar O Cobrador, mas não deriva da obra do Rubem Fonseca. Até dei uma lida pra ver qual era, mas ele lembra mais O Magnata do que o Fonseca.

Vai ser tipo uma continuação do O Magnata?
Não. ‘O Magnata’ teve começo, meio e fim. Não vai ter o dois nem o três. ‘O Magnata’ tem como pano de fundo o João Gordo, o Charlie Brown, o Marcelo D2, a galera, o rock. Esse filme é de ficção. Ainda não sabemos qual vai ser o pano de fundo.

Tem previsão de lançamento?
Final do ano que vem começamos a rodar. Vou começar a produzir e pré-produzir no começo de 2010, delegando pra brothers. Selecionando elenco, vendo locação. O roteiro está pronto, eu gosto bastante do argumento. Acho que esse filme vai ser legal, tende a ir melhor que o primeiro. Cineasta, músico, quem mexe com criação nunca está satisfeito. Quer sempre se renovar.

Existem outros projetos?
Ajudo projetos sociais, na parte do esporte, cultura. Tem o hospital do câncer que eu ajudo. Perdi meu pai por causa do câncer. O hospital do câncer de Barretos (SP) atende 90% das pessoas pelo SUS. Aparato de primeiro mundo, muitos artistas fazem doações e eu faço também, desde 2005. Com esse dinheiro construímos um pavilhão que abriga 180 pessoas.

Tem DVD previsto também?
A gente está fazendo um DVD e logo mais vai estar na mão. Estamos terminando de editar. Vai ser o DVD contanto a trajetória da banda, a vida na estrada, tipo um documentário. Mostra no primeiro ponto a banda gravando o disco, as 13 músicas. Tem a banda no estúdio como primeiro plano aí começa a aparecer cenas da estrada com shows, backstage, aeroporto, tomando canseira. Rotina de banda. A montagem é bem intensa, bem envolvente. Dentro de um mês deve estar pintando.

 

 

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