(SÃO PAULO/SP) Pense num grande festival no estilo de Glastonbury e Coachella, com vários palcos e atrações quase imperdíveis acontecendo ao mesmo tempo. Agora encaixe esse festival no centro histórico da capital paulista. Isso foi a Virada Cultural 2008, um evento que levou aproximadamente 4 milhões de pessoas para o “centrão”, segundo as estimativas da Secretaria da Cultura. E o detalhe mais importante: nenhum registro de tumultos graves como o que manchou a Virada do ano passado no frustrado show dos Racionais MC’s.
O Urbanaque havia traçado um roteiro para ser seguido quase à risca, mas a variedade era tanta e a distância entre os palcos também, que foi mais seguro concentrar as atenções em apenas três deles.
O roteiro imaginado era iniciar a Virada com o show do Luiz Melodia tocando Pérola Negra, seu disco de estréia às 18h. Mas três horas antes do evento uma fila já circundava o Theatro Municipal e o jeito foi ir direto para o palco Festivais Independentes conferir os cuibanos do Vanguart.
Com pouco mais de um ano morando em São Paulo e acumulando boas apresentações desde o início do ano na capital paulista, o Vanguart fez o segundo show mais cheio do palco dos Independentes (perdendo apenas para o Mundo Livre S/A).
No repertório, músicas do primeiro disco Vanguart, que foram acompanhadas por boa parte do público, que pulava e cantava bastante ao som de “Cachaça”, “Cosmonauta”, “Hey Yo Silver” (momento mais animado) e “Semáforo”. Apesar do show curto e de alguns problemas de som, a banda ainda apresentou uma versão mais rápida de “Sick Blues”, tirada dos primeiros registros do Vanguart, quando Hélio ainda gravava sozinho.
Com o término da apresentação muitas pessoas se dispersaram para outros palcos. Ficou claro que a maioria dos presentes estava ali para ver o grupo cuiabano.
Dando seqüência ainda no palco dos Independentes vieram Petro Massa (MG) e Trilöbit. Os mineiros apresentaram um funk-metal oscilando entre Living Colour e Seven Dust. Já os extraterrestres do Trilöbit transformaram o palco dos Independentes em uma rave roqueira.
Liderados pelo inquieto guitarrista Nosferatus (fazendo caras e bocas, principal responsável pelas doses de humor do grupo), os ETs vindos do Paraná misturaram guitarras sujas com levada surf à batidas eletrônicas e uma bateria frenética, confirmando a fama de Man or Astro-man? brasileiro.
Os únicos vocais do grupo eram samplers, que iam de Michael Jackson a Luiz Carlos Alborghetti. No final, uma versão pesada de “Enjoy The Silence” do Depache Mode, completando a abdução dos terráqueos ali presentes.
Outro grande nome do novo rock brasileiro e assim como o Vanguart, também morando em São Paulo, o Los Porongas (AC), mostrou porque teve seu primeiro álbum Los Porongas na lista de melhores discos nacionais de 2007.
Ao vivo os acreanos ganham muito mais força, principalmente na guitarra de João Eduardo. O vocalista Diogo Soares é outro destaque à parte na banda. A entrega dele ao cantar os versos de músicas como “Lego de Palavras” e “Suspeito de Si” impressionaram. Foi possível ver um grupo de pessoas em frente ao palco cantando junto com a banda, sinal de que a mudança para São Paulo criou novos fãs do Los Porongas.
Antes da tentativa de ver pelo menos um trecho do Sá, Rodrix e Guarabyra no Theatro Municipal, vimos um trecho do psychobilly dos curitibanos do Sick Sick Sinners, e o stoner rock do Mechanics (GO).
Uma pequena caminhada até o Municipal, já sabendo que seria impossível entrar para ver Sá, Rodrix e Guarabyra, demos uma descansada estratégica ali mesmo em frente, para conferir no telão algumas faixas daquele que foi considerado por muitos um dos melhores shows da Virada Cultural.
Para não passar muita raiva, rumamos de volta ao palco dos Independentes para assistir aos “pedreiros” do rock cuiabano, Macaco Bong. Com um som instrumental complexo, oscilando horas de peso com swing, os Bongs atraíram diversas pessoas que olhavam atentas Bruno Kayapy se deliciar com sua guitarra e Ynaiã Bertholdo porrar a bateria com um tremendo sorriso no rosto.
A banda veio a São Paulo já na contagem regressiva para o lançamento oficial do primeiro álbum, Artista Igual Pedreiro, que será feito em um festa em Goiânia, pela Monstro Discos.
Enquanto o Macaco Bong encantava o Páteo do Colégio, Zé Ramalho arrebanhava muita gente, que se espremeu em um corredor estreito na Avenida São João.
Com o final do show do Macaco Bong muita gente se dirigiu a Avenida São João para ver a nova formação dos Mutantes. No caminho, passando por um Viaduto do Chá lotado, com pessoas dividindo a atenção com coreografias feitas por artistas suspensos no Shopping Light e uma bandinha de Maracatu no meio da multidão.
Para chegar a Avenida São João ainda demos uma passada pelo palco Rock República lotado de metaleiros que estavam ali vendo Paul Di´Anno.
Como já era de se esperar, a Avenida São João estava completamente lotada para ver os Mutantes. O palco distante prejudicou aqueles que chegaram em cima da hora e quem dependeu do pequeno telão para ver os Mutantes apenas tinha a diminuta e embaçada imagem da banda, pois o som estava baixo e dificultava a audição dos atrasados. Uma coisa é certa, as pessoas estavam ali mais pelo mito do que pelo som, já que a nova formação dos Mutantes não encanta tanto, diferente do que aconteceu ano passado no aniversário de São Paulo.
Antes do fim do Mutantes fomos para o momento mais doloroso da Virada, duas horas de espera na fila para ver Pepeu Gomes no Theatro Municipal. Mas pode-se dizer com certeza que a espera foi recompensada.
Apesar do cansaço (que causou algumas pescadas durante o show) e de Pepeu não ter seguido fielmente o repertório de seu álbum, Geração de Som (1978) - “um clássico da música brasileira”, segundo o mesmo - foi inesquecível.
Acompanhado de seus irmãos Jorginho (bateria) e André Gomes (baixo), ele iniciou com “Saudação Nagô” e logo já mudou o repertório com “Tambaú”, “Didilhando” e uma faixa inédita, “Xulipe”.
Algumas peculiaridades do show foram a falta de um tecladista e o garoto Felipe Gomes, filho de Pepeu, fazendo às vezes de roadie do pai.
“Alto da Silveira” e “Malacaxeta” foram os grandes momentos da apresentação, finalizada com “Linda Cross” e o hino nacional brasileiro.
A noite de sábado (já manhã ensolarada de domingo) acabou ali. Para recarregar as energias uma bela cochilada para voltar ao centro de São Paulo e pegar mais alguns shows.
O domingo a tarde começou pra equipe do Urbanaque no show da Orquestra Imperial na Avenida São João. A trupe que tem entre seus integrantes Thalma de Freitas, Rodrigo Amarante (Los Hermanos), Nina Becker, Nelson Jacobina, e outros talentosos músicos, botou todo mundo pra dançar, transformando a São João em um imenso baile ao ar livre.
Um problema no som da Orquestra Imperial foi o pretexto para ir ao Páteo do Colégio ver os gaúchos do Superguidis. Ao chegar no palco dos Independentes o The Sinks (RN) finalizava seu show.
Com problemas no som, falhando guitarras e vocais, o Superguidis fez um show rápido e curto, mesclando músicas de seus dois discos como “Spiral Arco-Íris”, “A exclamação”, “Malevolosidade” e “Um dia de cão”.
Apesar dos problemas a banda conseguiu fazer um bom show e atraiu alguns de seus fãs para frente do palco. Esses ganharam de presente uma música nova e várias fotos com os guris após a apresentação.
Quando o MQN subiu ao palco para fazer o penúltimo show do Páteo do Colégio o cansaço já começava a pesar. Logo que pegou o microfone Fabrício Nobre mandou aumentar o som. Era possível ouvir as guitarras pesadas do MQN do Largo São Bento, há alguns metros dali.
Ainda tentamos ir até o Baile Chique, no Parque Dom Pedro II, para ver Afrika Bambaataa, mas ao chegar perto do terminal de ônibus fomos informados pelos policiais que o palco ainda estava distante dali. Com as pernas pedindo arrego e o raciocínio dando sinais de estafa, encerramos ali nossa Virada Cultural.
Na imensidão de shows pelo centro de São Paulo, Unidades do Sesc, CÉUS e parques, conseguimos ver mais de 14 shows de forma tranqüila e segura. Tirando o forte cheiro de urina, potencializado pelo sol do domingo, e alguns problemas de som a Virada Cultural 2008 foi um sucesso, 24 horas de boa música no maior festival a céu aberto da América Latina.
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