Delta Spirit cresce na estrada e tenta fugir de rótulos

Natural de San Diego, Califórnia, o Delta Spirit faz um indie rock que, em algumas canções, se encontra com o soul. Hoje, com quase seis anos de estrada, o grupo já prepara seu terceiro trabalho, embora seja curioso notar que tudo começou da forma mais despretensiosa possível. Ode To Sunshine, primeiro registro completo do grupo, foi gravado ao vivo e custou cerca de US$ 2,5 mil. “Era nossa única opção. Éramos apenas crianças que tinham equipamentos de gravação muito básicos. Encontramos um amigo que nos deixou usar seu estúdio e o resto aconteceu”, conta o baixista Jonathan Jameson, ao comentar que a intenção não era soar diferente, embora a forma como o álbum foi gerado tornou essa experiência parte integral do processo de gravação.

Ode To Sunshine traz consigo uma honestidade nítida e Jonathan acredita que se trata de um trabalho fundamental para aquilo que o Delta Spirit é hoje. “Honestidade e atitude pode transformar qualquer música em punk rock. Sam Cooke, Miles Davis e Hank William são mais punks que Sid Vicious”, brinca. O álbum traz boas canções, como o primeiro single “People C’mon”; mas aos poucos o ouvinte é pego com novas surpresas, como “People, Turn Around”. “Uma música pode significar tudo um dia e ser completamente tola em outro. Mas eu sinto como se “People, Turn Around” tivesse vida própria”. Mas é “Children”, uma daquelas canções que conseguem retratar simultaneamente as mais diferentes perspectivas, a grande surpresa do primeiro trabalho do quinteto. “Quando dizemos algo como ‘well if God is on our side’ há uma clara referência a Dylan, mas vejo que remete mais a uma citação de Lincoln, depois da Guerra Civil, onde ambos os lados, erroneamente, sentiram que Deus estava a seu favor e Lincoln então levantou a questão: é melhor pensar que Deus está no seu lado do que escolher estar ao lado dele?”, explica o baixista.

Já History From Bellow, segundo registro do Delta Spirit, evidencia o crescimento da banda. Claro, não se trata de algo meramente técnico: mesmo com o conteúdo lírico, History From Bellow soa mais denso, mais pesado. Para Jameson o fato de, na época, a banda estar excursionando durante dois anos, compondo as músicas paralelamente a uma turnê deu ao álbum uma sensação de movimento. “Por três anos nossa vida era a estrada. Amamos tocar e sair em turnê, mas quando você viaja tanto assim acaba perdendo sua identidade. Você está vivendo muito perto de seus amigos, mas é muito difícil ter uma conversa e isso pode te isolar. O disco acaba retratando essa realidade”.

Jonathan diz que History From Bellow pode ser apresentado por “Bushwick Blues”. “A música não tem refrão, é pura dinâmica. Há uma grande tensão, que pode ser facilmente sentida em seu videoclipe. É uma canção ‘nós poderíamos ter tido algo’”, explica. O álbum foi o cartão de visitas do Delta Spirit ao grande público; graças a sua boa recepção a banda frequentou as edições de 2011 do Coachella e Lolapalloza. “O mais importante foi o desafio de nos conectar a um público tão grande, no meio do dia e em um palco tão grande. É muito mais difícil que em uma casa noturna. Ainda estamos digerindo isso”, analisa.

O terceiro trabalho está sendo gravado em uma igreja no interior de Nova York, no meio da floresta e aproveitando todos os barulhos locais. Para Jonathan, esse processo que já aconteceu em Ode To Sunshine, é natural e em momento algum a banda sentiu que precisava restringir esse tipo de experimentação: “É uma nova aventura e estamos sempre querendo voltar para a cabine de gravação. Passamos muito tempo trabalhando nessas composições, temos um novo guitarrista, Will, que trouxe novas melodias e uma nova perspectiva, levando nossas canções a outro nível. Além disso, descobrimos essa nova invenção chamado sintetizador”, brinca.

Jonathan adianta que, embora a intenção seja fugir de rótulos e ir de maneira mais direta ao rock’n roll, eles não querem perder as características já intrinsicas à banda. “Não acredito que se trate de um processo de crescimento. Nós somos uma banda americana, assim como o Devo. Sempre iremos tocar música americana, só acreditamos que há mais na música americana que o ‘Americana’”, encerra.

[TEXTO Juliana Torres e Murilo Basso FOTO Cara Robbins/Divulgação]

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