Entrevista: contra dores psíquicas ouça PUJOL

Daniel Pujol é da corrente ebulição de bandas de garagem de Nashville (Tennessee, EUA) e é geninho da simplicidade.

Sua história não conta com feitos extraordinários mas ele não é um cara comum. Aos 26 anos, Daniel Pujol é o cara à frente do ato que leva seu nome de família – PUJOL – e por vezes é banda de um homem só. Sua maior aptidão sempre foi a linguística – ele tem um mestrado em Artes Liberais e Ciências Políticas – e escreve músicas e quadrinhos que, de tão simples, parecem filosofia.

Seu primeiro disco, United States of Being, é um brinde à criatividade através das ideias de um americano de 20 e poucos anos, que ama a namorada, o bicho de estimação (o coelho Spooky) e usa seus conhecimentos sofisticados para fazer o que mais gosta: música. E o impressionante é que não é um pingo chata: as guitarras são rápidas, a bateria quase fala e a melodia é o puro espírito da juventude. Pujol soa analógico e muito contrário ao rock computadorizado.

“Faço rock com andamento médio que faz as pessoas se sentirem bem. Rock clássico, jazz, hillbilly e fuga (estilo polifônico de composições barrocas) são ótimos para dar ritmo”, diz Pujol, empolgado com a energia que o ritmo excêntrico acrescenta velocidade à sua música. A isso, tem-se ainda a incomparável voz de Daniel: rouca, afinada em notas altas e livre de querer soar algo que não é – coisas de quem tem imaginação com asas.

“Tento ser a pessoa que canta as músicas, cada uma é um personagem ou pessoa diferente. As músicas são mundos menores e quero ser parte deles enquanto canto”.

Com um mestrado tirado em 2012, Daniel Pujol se prepara agora para um doutorado em Letras (ou em Teoria da Comunicação). Ele é um cara que sempre teve nas palavras um escape, algo no qual se focar para expressar seu interior.

Além das letras incomuns na banda, Daniel escreve Eggs, coluna de pequenos contos e poemas de ficção com ilustrações de sua namorada Alexa Zöe no NashvilleScene. “Fazer o Eggs me ajuda a escrever músicas porque consigo sentir as coisas de um jeito diferente do de compor”, diz Pujol, que usa versos mais longos e vocabulário menos concreto na coluna.

Sua escrita é algo iluminado: “escrever me ajuda a fazer sentido com as coisas e consigo tirá-las da minha cabeça e olhá-las”, analisa ele, dizendo “minha cabeça explodiria se eu tivesse que esperar [por alguém me entender], por isso as palavras me ajudam”.

Pujol tem encanações religiosas fortes e menciona Deus e a Bíblia muitas vezes; seu discurso é libertário (boa parte por conta dos vocais semi-gritados), alcunhou aquela dor incômoda que sentimos e nem sabemos por quê de dor psíquica e colocou uma melodia fuzzy grudante que vai te ajudar a curá-la. Ele se mostra preocupado com o futuro político de seu país e reflete sobre “evitar a mediocridade”.

Confira abaixo mais sobre a mente brilhante de Daniel Pujol, que tirou um tempo para explicar a si mesmo e suas criações ao Urbanaque.

Foto: Reprodução

Urbanaque: Como está a atual cena de Nashville? As bandas com certeza não se parecem. Existe algum motivo para ser tão diversa?

Pujol: Em 2007 todas as bandas de Nashville faziam shows e tocavam juntas. Todos se encontravam nesses shows e essas eram as bandas da cidade. Cada uma tinha influências diferentes mas todas tocavam junto. Agora cada banda intepreta o rock de um jeito embora venha do mesmo cenário e da mesma estética.

Você já trabalhou com Jemina Pearl (ex-líder do Be Your Own Pet, cantora solo e atualmente na banda Ultras S/C – que começou como The Black Faces tocando na Third Man Records)?

Nunca trabalhei com Miss Pearl. No entanto, ela namora um amigo meu, Benjamin Swank, e eles têm uma banda muito boa juntos com Chet Weise, o Ultras S/C. Os três são muito legais.

Por que você cita Deus e assuntos religiosos tantas vezes durante suas músicas?

A religião no mundo é fascinante. É um belo jeito de expressar coisas que poderiam ser descartadas por não serem racionais ou parecerem sem propósito. Como por exemplo ser uma pessoa completamente desenvolvida, ou querer ser bom. Querer não porque você “tem que”, mas porque você quer. Eu quero crescer. Existir ao mesmo tempo que outros seres de sensibilidade é incrível.

O verso “ela tem o mesmo rosto mas com uma energia diferente” (de “Endless Mike”) é muito bom. Qual a inspiração para ele?

A diferença entre quem você pensa que alguém é e quem essa pessoa decide ser. O espaço entre duas pessoas. Não importa quem você queira que alguém seja se isso estiver só na sua cabeça.

Como você se sente sendo um jovem homem americano?

É assim que me sinto sendo um “homem”: quero evitar a mediocridade. Quero ser bom o suficiente em algo para poder cuidar de mim mesmo e sentir orgulho de mim mesmo e do que faço. Quero atingir meu potencial máximo. Tenho um habitat estável em Nashville, o que é ótimo. Sei que não é todo lugar no mundo que é assim. Seria um desperdício se eu não tentasse o meu melhor.

Sobre ser “jovem americano”, acho que tem coisas erradas na política, na economia e na sociedade. Tudo é muito abstrato mas tem consequências concretas. É uma era interessante para a língua e ideias usadas para descrever, interagir e influenciar um ambiente.

Eu também já sofri de “dor psíquica” (cantada em “Psychic Pain”). Existe algo para se fazer nesses momentos ou passa?

Aprender novas palavras e ideias me ajudaram com minha dor psíquica. A minha não vai embora até que eu aprenda como defini-la. Talvez somos diferentes, mas recomendo palavras e escritos de outras pessoas. É reconfortante saber que outros já sentiram o que você sente. É menos solitário.

Como você quer fazer as pessoas se sentirem com sua música?

Felizes e não-solitárias. O mundo é insano e fascinante neste momento. Não quero fazer arte escapista, quero fazer arte que dê um descanso às pessoas ou que faça seus dias melhores. Como se elas estivessem sendo abraçadas.

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