Entrevista: Fred Di Giacomo conta como foi escrever Canções Para Ninar Adultos

Como todo bom interiorano que vem para a capital paulista e nunca mais volta, Fred Di Giacomo sente orgulho de ter largado a pacata Penápolis, no oeste paulista, para viver bem como jornalista em São Paulo.

Formado em jornalismo pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Bauru, foi mais ou menos em 2002, durante a faculdade, que ele começou a esboçar as primeiras linhas de “Canções Para Ninar Adultos”, que na época ainda se chamava “Amor em Tempos de Aids”, um título de gosto extremamente duvidoso, de acordo com o próprio Fred.

Em 2006, após ser aprovado no Curso Abril de Jornalismo, foi contratado pela editora e hoje coordenada a premiada equipe dos sites da Superinteressante, Mundo Estranho, Guia do Estudante e Recreio.

Mas foram necessários mais alguns anos até que ele retomar os rascunhos da faculdade, reescrever quase tudo e lançar o elogiado “Canções Para Ninar Adultos” (Editora Patuá), um livro de contos que utiliza a estrutura de um bom disco de vinil para falar de temas que vão desde sexo extremo até mitologia grega e religião.

Encontramos com Fred em um de seus bares preferidos, o Coqueiro’s Drinks, reduto de jornalistas da editora Abril, para que ele explicasse, entre uma cerveja e outra, como foi reunir, reescrever e publicar os contos de seu livro de estreia.

Como foi a escolha do título do livro? Você não ficou com medo de parecer sonolento demais?
Fred – Na real eu comecei a escrever o livro de contos no final da faculdade, em 2005, e ele ainda se chamava “Amor em tempos de AIDS”, inspirado no “Amor em Tempos de Cólera” do Gabriel Garcia Márquez, mas acho que seria polêmico demais [risos].
Depois rebatizei ele de “Rebeldes de iPhone, Ninfomaníacos e Paulo Coelho”, mas também não era um nome bom…

Ficou com medo de ser processado pelo Paulo Coelho?
Olha, na real ia ser bom tomar um processo dele [risos], ia vender bem mais.
Mas o livro é metade contos mais porradas e realistas, metade contos de fadas para adultos mesmo. Por isso pensei no título, não para causar sono, mas para dar uma acalmada nessa galera que vive com síndrome do pânico, depressão e outros traumas dos tempos modernos. É como se fosse um antídoto a tudo isso, mas não é um livro que dá sono. Ele pode até provocar vômitos e ereções, mas sono não.

E como foi reunir tantos temas diferentes como religião, sexo e música de uma forma que faria sentido neste livro?
Quando eu realmente decidi publicar o livro, no final de 2011, eu comecei a passar várias madrugadas lendo tudo de novo, reescrevendo os contos. Alguns estavam muito ruins, outros muito bons. No final, aproveitei cerca de 30% do que havia escrito em 2005.

É um livro bastante influenciado por música, dividido em lado A e lado B, tem uma sugestão de músicas para acompanhar os contos. A ideia era passar a impressão de como é ouvir um bom disco do Bob Dylan ou do Nirvana, que falam de vários temas.

Apesar de terem chamado bastante a atenção para os contos de putaria, é um livro que fala sobre a vida, e sexo faz parte disso. Mas não é um livro pornográfico, é um livro que fala de sexo sem frescura, de mitologia grega, de religião…

Mas os contos foram realmente inspirados em coisas que aconteceram com você ou teve muita coisa inventada ali?
Um que foi realmente inspirado em fatos reais foi o “Você me lembra coisas gostosas em lugares bonitos”, que é bem autobiográfico. Outros são inspirados em fatos da minha vida, como ser um jovem jornalista que vem do interior e se muda para São Paulo.

Agora a grande maioria é inventada, o que é muito mais legal que a minha vida. “Uma âncora chamada luxúria” foi um exercício meu de como imaginar levar o sexo ao limite máximo, não daria para ser a minha vida. Outras coisas são inspirados em amigos meus.

E quais são outros contos inspirados na sua vida?
Tem um que conta a história de um cara que vem pra São Paulo de ônibus e a viagem não acaba nunca. Ele fica ali preso durante anos no ônibus, algo meio claustrofóbico. Eu me inspirei nas horas que eu passava viajando de Reunidas de Penápolis pra cá [risos].

Outro conto, o “Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê” é sobre o questionamento de querer fazer projetos, ser artista, mas ter que ganhar dinheiro para sobreviver. É sobre questionamento, sobre o quanto valei eu passar a vida inteira em São Paulo, trabalhando 12 horas por dia numa agência de publicidade ou de uma redação. Quais as causas da minha geração? Por que estou fazendo isso?

Eu tenho esses questionamentos, trabalho há 6 anos na editora Abril. Com exceção de ‘Você me lembra coisas gostosas”, não tem algo tão literal assim.

Você cita bastante Charles Bukowski, né? Com foi que ele e a música te influenciaram na forma da sua escrita?
O Xico Sá falou algo no prefácio do livro que cita a forma “sampleada” da minha escrita. Eu tinha medo de ser muito chato, mas pelos comentários das pessoas, elas dizem que apesar de ter muita referência ali, não chega a atrapalhar o resultado final. Eu tento fazer que tudo soe muito natural.

Se a gente senta no bar com os amigos, a gente conversa sobre o último filme do Tarantino, o livro que tá lendo… Então tentei colocar isso de forma natural, despretensiosa e não ficar falando “olha como eu sou foda, li 300 livros hoje”.

Meu jeito de escrever é influenciado pelas músicas que ouvi, filmes que assisti e tento o tempo todo fazer um diálogo tão bom quanto do Quentin Tarantino.

Fred di Giacomo durante o lançamento de “Canções Para Ninar Adultos”

Teve algum momento em que você percebeu que seu livro estava ficando muito igual as suas referências e teve que escrever tudo de novo ou simplesmente ligou o “foda-se” e foi em frente?
Escrever o primeiro livro é sempre difícil, ainda mais para um moleque de 29 anos igual eu. Falar que tenho uma escrita original seria muito arrogante da minha parte.

No começo eu achava tudo muito parecido com o que eu lia, Henry Miller, Charles Bukowski. Eu me policiei muito para não ir para este lado, tanto que em um dos contos eu digo que recebi uma ligação do Bukowski me xingando porque eu era uma cópia caipira dele. E era justamento o que eu não estava tentando ser. Eu só tentei contar uma boa história com tempero de sexo.

E como seus pais reagiram ao ler tanta putaria misturada com religião no livro?
Meus pais são uns hippies velhor, né? [risos]. Ele são professores, então cresci rodeado de livros e discos, o que me influenciou muito.

Quando era adolescente eles pegavam no meu pé porque eu era um punk sujo de Penápolis, mas escrever e ler bastante eram coisas que eles me incentivavam bastante.

Eles adoraram o livro, acho que só se preocuparam mais com o conto do pai que esmaga o pé do filho, por ser uma referência a pegação de pé que sempre rola dos pais. Aquele lance de não querer que o filho saia de casa.

Mas nem ligaram muito pra putaria. Assim como o Bukowski, eles são dois velhos safados.

E você ficou satisfeito com o resultado final?
Cara, você está me perguntando se o pai achou o filho bonito ou não! Eu fiquei bem orgulhoso com esta edição, com o cuidado da editora em lançar ele em formato de disco, a boa repercussão, uma orelha escrita pelo Xico Sá, sendo que nem sou amigo dele.

Como escritor eu sempre acho melhor o próximo projeto que estou trabalhando, que é um livro de poesias ilustradas para criança
s e também um romance que estou terminando.

Meu objetivo é sempre melhorar o que já foi escrito, quero ter a capacidade de ler mais, escrever mais e ter 50 anos e estar escrevendo melhor ainda.

[ENTREVISTA CIRILO DIAS E BRUNO DIAS FOTOS: DIVULGAÇÃO]

Co-fundador e editor do Urbanaque.com.br e Birrinhas.com

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