Especial “POR ONDE ANDA?” Capítulo #04: Faichecleres

O Faichecleres é talvez uma das bandas que melhor encarou o espírito rock’n’roll que o circuito independente pré-2010 oferecia. Levados por uma renascença do Mod que varreu boa parte das bandas do sul do país, os Faichecleres têm histórias de glória e percalços homéricos.

Eles apareceram em 1998 e se compunham como trio – formato que sempre tiveram, apesar de mudanças na formação. Os primos Tuba Caruso e Giovanni Caruso (bateria e baixo/voz, respectivamente) e Marcos Gonzatto (guitarra) causavam uma ótima primeira impressão no palco: som altíssimo, bateria matadora, guitarras honky tonk e uma grande dose de swing sessentista eram uma fórmula perfeita.

Por volta de 2002/2003 eles começaram a circular mais (e até ganharam um Prêmio Dynamite como banda revelação) e deixaram a cidade-natal da banda, Curitiba, para percorrer estrada. Passaram a tocar nos festivais mais estabelecidos da época e, pouco a pouco, foram se fazendo conhecer nos pólos como São Paulo, Centro-Oeste e Nordeste.

Por volta de 2004 existia uma cena meio ‘casta’ no independente. Os festivais aconteciam na raça, com grana de patrocinadores de pequeno porte e muitas trocas de serviço. Essa época foi de ouro! Bandas emergiam de cada canto do país trazendo algo próprio e somando a um circuito que crescia a olhos grandes e logo se tornaria uma estatal no Brasil todo. E os Faichecleres tiveram um grande espaço e importância na eminência do independente nacional.

Eles fizeram dois discos com a primeira formação: Indecente, Imoral e Sem Vergonha saiu em 2005 e Calçada da Fama em 2007. Os CDs e vinis vendiam como água, todo mundo tinha o bottom, os shows esgotavam rápido e todo mundo se jogava sem dó, vestindo os melhores figurinos retrôs para combinar com o clima.

Os Faichecleres participaram de um extinto reality da MTV com bandas indies na estrada, tocou em todos os lugares e montou um grande e fiel sem-número de seguidores. Causaram várias arruaças e têm boas memórias para contar de um mundo que não é para qualquer um: rockstars em potencial.

Mas as coisas nem sempre são o que parecem e, no meio do auge, um anti-clímax mudou a vida e o destino do trio. O baixista e vocalista Giovanni Caruso não quis mais estar numa banda, deixando o grupo com shows marcados da turnê que faziam do segundo disco. A volta nunca aconteceu e nem mesmo a turnê foi terminada como havia sido planejada. Os Faichecleres tinham um caminho incerto e uma vaga de baixista.

Pelo posto das quatro cordas passaram Raphael Vinotti (também da banda Dissonantes), Ricardinho (tocou no Beatkidz), Cauê e Edu Barreto, mas nenhum vingou. Enquanto isso a banda produzia seu próximo álbum, tendo Tuba Caruso e Marco Gonzatto como cabeças da composição.

O disco foi intitulado Uma Noite Daquelas e precisou ser engavetado porque a banda se desfez.

Tuba descobriu em sua forte personalidade um lado menos mundano e mais imaterial da vida e foi trabalhar como naturopata. Ele ainda toca “uma infinidade de instrumentos de percussão em todos os estilos que você pode imaginar”, diz o próprio.

Marcos Gonzatto foi para a Itália e depois que voltou ao Brasil foi procurar música para fazer. Formou o Yokels com Renato Ximu, onde exploram o country e folk rock americanos e o Argamassa com Fabiano Nasi (que tocava no Flutuantes), e devem ter o primeiro disco lançado em outubro. Marcos também encara um disco solo, que está gravando atualmente sob nome fictício de Harrison’s. “Não sei viver sem ter um som de guitarra bem alto na minha orelha com um baixão pesado e uma prataria de bateria me incomodando o ouvindo esquerdo”, conta o guitarrista.

Giovanni Caruso tem a banda Giovanni Caruso e O Escambau em Curitiba.

E Ricardo Moura, que sempre esteve ao lado dos Faichecleres como empresário, também está lançando um disco solo, além de continuar com os trabalhos da Fan Music, sua produtora cultural.

Uma banda que se tornou um clássico no independente não é para muitos e os Faichecleres têm uma trajetória impossível de descartar. A banda terminou mas deixou o terceiro marco de sua carreira pronto para o momento mais oportuno de ser lançado.

“Estamos no processo de lançamento do terceiro disco dos Faichecleres, Uma Noite Daquelas. Tem parceria com a Vinyl Club de Curitiba e 400 cópias em vinil serão fabricadas. Vamos ter alguns shows de lançamento e fechar a história dos Faichecleres com chave de ouro”, diz Tuba, que sabe que sua banda realmente marcou uma época e merece ter um final à altura.

 

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