Fabio Góes revela as inspirações das músicas de “O Destino Vestido de Noiva”

O cantor e compositor paulistano Fabio Góes lançou em 2007 seu debute, intitulado Sol No Escuro, e que se não chamou tanta atenção do público, arrebatou críticas efusivas devido a sua atmosfera anuviada e melancólica.

Recheado de músicas com belas orquestrações e climas densos, o álbum chegou a figurar em várias listas de melhores daquele nem tão distante ano, sendo que a faixa “Sem Mentira” foi escalada para embalar as desventuras da atriz Andréia Horta, protagonista da série produzida pelo braço brasileiro do canal HBO.

Em junho, Fabio colocou na rua o sucessor de sua estreia, que recebeu o enigmático (e poético) nome de O Destino Vestido de Noiva, que traz canções com climas mais festivos, quase pop. Pedimos para o Góes rabiscar algumas linhas sobre quais foram as inspirações e motivações por trás das onze faixas de seu novo trabalho, e algumas respostas são bem surpreendentes.

Tão Alto e Fora do Lugar
Essa canção eu compus para uma amiga, Paula Santisteban. Ela estava montando repertório pra um disco que acabou não acontecendo ainda. E eu fiz, pensando nela, pensando numa música pop legal, que embalasse. Tava ouvindo muito a Feist nessa época. E como filho nosso a gente ama, a música entrou pro meu disco e ganhou o arranjo que eu imaginava pra ela.

Domingo e as Plantas
Quando procurava uma casa pra morar com minha mulher, visitamos um dia uma casinha de vila bem pequena, com uma escadinha na cozinha que descia pra um jardinzinho muito charmoso. Ali bateu aquela vontade absurda de morar numa casa com ela. A música vem daí. Originalmente era bem lenta, com um piano bem espacial. Mas eu gostava dela e fiquei matutando maneiras de torná-la mais “embalada”. Uma música do Phoenix chamada “Fences” me trouxe a ideia de levada possível.

Nossa Casa
Teve uma música que compus que acabou num comercial da Ford chamada “Pictures”. Por ser em inglês, fiquei com vontade de compor algo naquela linha, mas em português. O arranjo acabou fugindo pra outro lado.. aliás, esse foi o arranjo que mais se reinventou no disco. Esse arranjo final foi a terceira tentativa, inspirada nos vocais magníficos de uma banda inglesa chamada Grizly Bear.

A Rua
Talvez a música mais brasileira do disco. E por ter um sotaque de “samba-rock”, chamei meu amigo Luciano Nakata, AKA Curumin, pra cantar e me ajudar na batera. Ele programou e tocou a bateria em sua MPC, uma bateria eletrônica, o que trouxe uma textura muito interessante pra parte rítmica do arranjo. E cantou também comigo a música, que fala de um fenômeno bem de cidade grande, de violência, que faz com que as crianças muitas vezes não possam crescer na rua como em outros tempos.

Fugindo
Uma música que fala de pegar as coisas e sumir. Da era da informação e seus pânicos! Será que a gente realmente aguenta bem absorver fome, violência e futebol numa zapeada rápida? Kassin tocou baixo nessa. Curumin na bateria. E uma cama de clarinetes tocada pelo meu mestre Ed Côrtes, que junto com o sintetizador, gerou um dos climas que mais gosto do disco.

Frágil
O Duda, baixista com qual toco há muito tempo, fez parte da banda do Acústico do Sandy e Júnior, e nesse trabalho o produtor musical era uma cara chamado Paul Ralphes. O Duda na época mostrou pra ele o Sol no Escuro, que gostou. Um tempo depois, o Paul me procurou, pois ia produzir o disco solo da Sandy, e pensou que seria bacana ter uma música minha. Pois então, compus “Frágil”, pensando numa balada pra uma menina, de um público bem eclético. No fim, o Paul acabou não produzindo o disco da Sandy, e acabei gostando da música.

Incenso
Sempre pensei nela como a primeira do disco e acabou não funcionando tanto pra isso. Mas vai ser a primeira do show, com certeza.

A Escolha
“A Escolha” era originalmente um poema. Foram poucas as vezes em que fiz letra antes da música. Nesse caso, foi muito bom dar harmonia pra essas palavras, ainda mais podendo tirar dela o título do disco. “A escolha é o destino / vestido de noiva / um lado tomado no instante casado com as luzes e a sombra”.

E o Amor que Não Cabe Mais
A letra dessa é bem explícita. Uma música pro meu filho. A pergunta que sempre escuto é “porque cabelo penteado?” É porque eu realmente fico doido de ver meu filho depois do banho, cheirosão, de cabelo penteado.

Na Pele
Em 2008, o SESC Pompéia promoveu um projeto com a execução de todas as faixas do primeiro álbum do Clube da Esquina. Chamaram para produzir a banda um cantor, compositor e produtor do Rio de Janeiro chamado Marcelo Frota, o cara por trás do projeto Momo. Ele me chamou pra participar desse show, que reuniria alguns caras originais do Clube da Esquina, como Tavinho e… Beto Guedes.

Acontece que eu era e sou apaixonado pelo Clube da Esquina, pelo Milton Nascimento, e costumava dizer pra amigos que uma das poucas coisas que eu queria com o Sol no Escuro era poder um dia dar um disco pro Beto Guedes. Bom, o convite me chapou por completo. Chapado, no mesmo dia, fiz essa música, que fala, justamente: “De arrepiar/ Dessa vez eu vou estar/ Na pele/ de um cavaleiro dessa esquina”.

Sonho
“Sonho” é um registro original de uma composição, gravada na hora, e portanto com barulhos de carro, passarinho, tudo de verdade, congelado naquela gravação super simples. Essa verdade singela, por ser também um poeminha musicado, achei que cabia bem como estava, na ideia original, no clima daquela manhã no antigo apartamento alugado nas Perdizes. Tem uma sinceridade nessa tosquice que me agrada. Uma proximidade com a essência que as vezes um arranjo vai e tira.

Amor na Lanterna
Estava assistindo ao documentário sobre a vida do Arnaldo Batista, Loki, e tem uma passagem da vida dele que mexeu muito comigo. Foi aquela dele depois dos Mutantes, tentando sustentar a família, prover tudo que o filho precisava, a além disso se manter feliz, realizando sonhos, e as coisas não pareciam dar certo. Ele foi ficando deprimido, enfim.. Ai pintou uma foto dele com o filho pequeno, que me quebrou as pernas, fiquei muito emocionado. Eu ali, com filho pequeno também, sonhando pacas, e com responsas pacas. “Amor na Lanterna” é sobre esse dia, que me deu vontade de registrar também com a idade na letra, pra que quando eu olhasse pra trás, pra essa época, estivesse congelado ali naquela música da forma mais fiel possível aquele momento de esperança e angústia, catalizados violentamente pela história do Arnaldo Baptista. “Sentado aos 33/ Eu não enxergo a previsão/ Mas toco o plano em frente/ Pro meu destino eu estendo a mão/ Com amor na lanterna”.

Ouça O Destino Vestido de Noiva aqui.

[TEXTO: Leonardo Dias Pereira FOTO: Divulgação]

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