Faixa a faixa: Jair Naves, “E você se sente numa cela escura…”

Foto: Patrícia Caggegi

Depois de se lançar solo com o EP Araguari (2010), Jair Naves (ex-vocalista do Ludovic) acaba de colocar na rua seu primeiro álbum solo, E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas.

O disco conta com produção do próprio Jair e foi gravado, mixado e masterizado por Fernando Sanches, no Estúdio El Rocha.

Antes de fazer o show de lançamento do CD, que acontecerá no dia 14 de outubro, no CCJ (Centro Cultural da Juventude), em São Paulo, Jair Naves destrinchou o álbum, que você pode baixar gratuitamente pelo site dele.

Aproveita para ler esse faixa a faixa ao som de E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas.

01 – “Pronto para morrer (o poder de uma mentira dita mil vezes)”

A faixa que abre o disco, curiosamente, foi a última a ser escrita. Mais do que isso, foi incluída na última hora. Fiz a música inteira na antevéspera do início das gravações, numa manhã de sábado, em menos de uma hora. Apresentei-a para a banda no ensaio que fizemos algumas horas mais tarde. Lembro até hoje da reação do Thiago Babalu, nosso baterista, quando soube que ensaiaríamos uma música nova para gravar em poucos dias: “rapaz, você não acha que já temos problemas suficientes?” (risos). Ainda assim, criamos rapidamente um arranjo e dois dias depois já estávamos em estúdio trabalhando nesse registro.

A ideia era criar algo diferente do restante do repertório, tanto musicalmente quanto no conteúdo da letra. É a composição mais sombria, áspera, difícil de todo o álbum. Ainda assim, foi a escolhida para ser a primeira a ganhar um videoclipe – fato que, além de revelar nosso inexistente tino comercial, mostra o quanto ficamos empolgados com o resultado.

02 – “Poucas palavras bastam”

Durante alguns meses, num período em que a banda que me acompanha passou por um longo processo de reformulação, parei de fazer shows e me foquei na finalização do material em que esse disco se basearia. Nesse tempo, eu, Renato Ribeiro (guitarra) e Thiago Babalu (bateria) ensaiávamos compulsivamente para dar forma às minhas ideias. Essa música foi uma das primeiras em que trabalhamos, e lembro de ter ficado impressionado com o quanto eles conseguiram melhorar a canção. A frase de guitarra é especialmente marcante e inspirada.

O título, além de fazer referência ao tema abordado na música, é uma pequena piada com a extensão do nome do disco e de algumas das letras. Não sei se mais alguém vê graça nisso, provavelmente não, mas ainda assim me parece bem apropriado.

03 – “No fim da ladeira, entre vielas tortuosas”

Como a ideia para esse disco era fazer algo bem cru, orgânico, que soasse o mais verdadeiro possível e sem correções de pós-produção, tivemos que chegar em estúdio com todas as ideias muito amadurecidas. Exceto algumas linhas de baixo e boa parte das letras, que eu sempre acabo deixando para a última hora, tínhamos tudo muito definido e ensaiado. Fizemos pouquíssimas experiência durante as gravações. Um dos poucos momentos em que nos arriscamos de verdade foi na gravação de “No fim da ladeira, entre vielas tortuosas”.

Depois de gravarmos toda a base instrumental (guitarras, baixo e bateria) e a voz, me ocorreu tentarmos uma sanfona fazendo a função de um órgão, algo que desse corpo ao arranjo. Quando chamamos a Cimara Fróis para gravar, ela mal conhecia a música e ficou experimentando algumas frases. Pedi para que ela fizesse algo simples, sem muitas notas. Não demorou para que ela pegasse o espírito da coisa. O resultado ficou lindo, das coisas de que eu mais me orgulho.

No que diz respeito à letra, minha intenção foi usar a linguagem mais corriqueira, direta e universal possível. Se soar como Odair José para alguém, ótimo. Além disso, me surpreendi com o senso de humor que eu deixei escapar em alguns dos versos (especialmente na primeira estrofe), coisa meio rara na minha produção. Assim como aconteceu em “Pronto para morrer”, “Maria Lúcia…”, “Eu sonho acordado” e algumas outras faixas desse álbum, sinto que expandi um pouco meu leque de opções enquanto compositor. O que não poderia me deixar mais contente.

04 – “Maria Lúcia, Santa Cecília e eu”

Uma das três parcerias desse repertório. A base que originou “Maria Lúcia, Santa Cecília e eu” foi criada há alguns anos pelo Alexandre Xavier, pianista que fez a turnê do EP “Araguari” comigo e que também participou dessas gravações. Logo depois, ficamos tocando por algum tempo na casa dele e eu o ajudei a organizar o arranjo, criando partes diferentes e tudo mais. Apesar de termos a estrutura dessa canção há muito tempo, demorou demais para que eu conseguisse escrever a letra. Eu não sabia como corresponder à doçura que a música apresentava. Até que tive a ideia de falar de amores reprimidos, da minha visão particular de Deus e da tal Maria Lúcia.

Difícil falar muito mais do que isso. Me emociono facilmente com o assunto. Minha mãe, como denunciam os versos, é a pessoa mais importante do mundo para mim. Fico feliz em ter conseguido externar isso de uma maneira aceitável, que não fosse cafona demais.

Ah, sobre a parte instrumental, poucas vezes fiquei tão satisfeito. Todos os músicos estavam na sua melhor forma. O solo de guitarra é especialmente tocante, um dos destaques do ótimo trabalho que o Renato fez nesse disco.

05 – “Carmem, todos falam por você”

Velha conhecida do nosso público, “Carmem…” está presente no nosso repertório desde o começo. É uma das duas que não foram escritas especificamente para esse disco.

Sempre me surpreendo com o quanto as pessoas gostam dessa. Lembro que no meu primeiro show solo, na ocasião do lançamento do EP, tocamos essa música na passagem de som. O pessoal da Travolta Discos, o selo que está lançando esse disco (em parceria com a Popfuzz Records, de Maceió), logo comentou que essa era “a” música. Demorou para que ela ganhasse um registro, mas valeu a pena.

06 – “Guilhotinesco”

Nessa faixa fica novamente claro o quão talentosos são os músicos que tocaram comigo. Acho que fomos todos muito felizes nesse arranjo, especialmente na brilhante linha de baixo do Alexandre Molinari e no solo de vibrafone em uníssono com a guitarra, ambos feitos pelo Renato (aliás, o vibrafone foi gentilmente emprestado pelo Maurício Takara – ficam aqui os nossos sinceros agradecimentos a ele).

Entre todas as músicas, essa era a que eu mais queria que tivesse um ar de “ao vivo”. Me orgulho muito com o fato de termos conseguido deixar o instrumental tão pulsante e orgânico. Isso se deve muito à assistência do Fernando Sanches, brilhante engenheiro de som com quem tivemos a sorte de contar nesse trabalho. O Fernando domina como poucos a linguagem de rock que queríamos dar pra esse disco e para essa faixa, mais especificamente. Sem ele, não teríamos chegado nem perto desse resultado.

Geralmente evito explicar os significados das letras, mas nesse caso específico abrirei uma exceção. “Guilhotinesco”, ao contrário do que pensa a maior parte daqueles que analisaram o disco até agora, não é exatamente uma canção de amor perdido. A parte que fala do beijo é puramente metafórica, não tem literalidade nenhuma nisso. A letra é toda sobre desilusões decorrentes do envelhecimento, de questionamentos existenciais e coisas do gênero.

07 – “Vida com V maiúsculo, vida com v minúsculo”

A primeira que eu fiz enquanto “artista solo”, anterior a tudo que eu lancei desde o fim do Ludovic. Apesar de ser antiga, eu ainda não tinha conseguido gravá-la de maneira satisfatória. É algo muito diferente de tudo que eu já fiz na vida, acho que dificilmente conseguirei fazer outra canção com uma estrutura que se assemelhe a essa. Levou um bom tempo para que eu alcançasse um bom resultado em termos de arranjo e registro. Sempre me parecia que eu ainda não tinha alcançado todo o potencial dessa composição. Dessa vez, acertamos – timbres, execuções, enfim, tudo correu perfeitamente bem. Eu não poderia estar mais satisfeito, é um dos pontos altos do disco, na minha opinião.

08 – “Covil de cobras”

Provincianismo, fuga da realidade, a importância do dinheiro nas relações humanas, indiferença, a perda da ternura e o cinismo decorrentes do passar dos anos… não são poucos os temas abordados em “Covil de cobras”. Alguns dos tópicos são coisas sobre as quais eu nunca tinha falado antes. Sinto que explorei territórios novos enquanto compositor.

Embora eu tenha chegado nos ensaios com a estrutura da música quase toda pronta, o Renato criou frases de guitarra tão inspiradas e marcantes que acabaram mudando todo o desenvolvimento do arranjo. Ele pegou uma ideia crua e transformou em algo assustadoramente bom. Não foi por acaso que acabamos dividindo a autoria da composição.

Outra curiosidade sobre essa faixa está no baixo. O Molinari chegou ao estúdio praticamente sem saber o que estávamos fazendo. Em poucas tentativas, ele criou frases melódicas que eu jamais conseguiria imaginar. Das cenas mais incríveis que eu já presenciei em um ambiente de gravação.

09 – “A meu ver”

Sem sombra de dúvidas, a mais trabalhosa. Por pouco não desistimos dela. Originalmente, a ideia era que eu fizesse toda a primeira parte sozinho e que a banda entrasse apenas no fim da música. Quando fomos gravar a pré-produção, entretanto, ficou evidente que o meu jeito de tocar era muito sujo, que a música pedia algo mais delicado. Então resolvemos fazer com que o Renato gravasse a base em um violão de cordas de nylon, o que me obrigou a ensiná-lo a tocar a canção nota por nota, compasso por compasso.

Quando chegamos no estúdio para gravar a versão final, vimos que teria que ser sem metrônomo se quiséssemos manter a espontaneidade do arranjo original – decisão que dificultou demais a execução. Gravamos a parte final separadamente, e depois eu e o Renato nos dedicamos ao trecho que é só voz e violão.

Me orgulho muio de termos insistido nessa. É uma das que mais me emocionam entre tudo que eu já fiz. Surpreendentemente, acabou sendo a mais falada entre aqueles que ouviram o disco. Valeu a pena.

10 – “Eu sonho acordado”

Por fim, a minha preferida. Toda vez que vou ouvir esse material, começo por essa. Provavelmente o melhor arranjo e a melhor gravação em que eu já estive envolvido. Tudo nessa música parece se encaixar perfeitamente: as frases entre as guitarras, a linha de baixo meio hipnótica, a levada quebrada de bateria e os bumbos estourados no fim, os ruídos com o piano ao fundo… gosto da letra também, consegui expressar sentimentos que não são lá muito fáceis de serem exteriorizados. Todos os envolvidos pareciam estar bem inspirados quando fizemos essa.

A bem da verdade, minha predileção por essa chega a tal ponto que a princípio o álbum iria se chamar “Eu sonho acordado”. É a mesma ideia de escapismo que eu quis passar com o título definitivo, mas não me parecia forte o bastante. Daí a escolha por “E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas”, que me pareceu o mais adequado por ser longo, expressivo e causar uma reação imediata nas pessoas. Assim como eu busquei fazer com o disco em si.

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