Father John Misty em São Paulo foi como um abraço quentinho numa noite fria

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Apesar do frio de 12 graus ser desencorajador pra qualquer ser humano deixar seu lar numa véspera de segunda, a temperatura estava favorável para sentir o climão das canções de Josh Tillman. Aliás, foram poucos os que tiveram coragem, afastados pelos altos valores dos ingressos (mesmo para uma apresentação impensável para o tamanho atual de Father John Misty), ou simplesmente pela preguiça de sair de casa numa noite gelada de domingo.

Antes de falar do culto promovido por Tillman, é importante destacar o acerto na escolha do local da apresentação promovida por Queremos! e Popload: o Auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, que por si só já valeria a visita. Ele estava fechado para reforma desde 2013, após ser destruído por um incêndio. Assim como o próprio Memorial, o auditório é mais um fruto da genialidade arquitetônica de Oscar Niemeyer e, em seu interior, conta com um painel em tapeçaria desenhado pela artista plástica Tomie Ohtake. Obra que foi destruída pelo fogo e restaurada pelos mesmos artesãos que confeccionaram a original.

Com capacidade para 1.800 pessoas, o Simón Bolívar não estava lotado, o que deu ainda mais ares de show particular. O palco ficava localizado no meio das das duas plateias, o que fez com que a banda ficasse disposta ao centro, de forma que fosse vista dos dois lados. Já Josh Tilmann se esforçava para dar a devida atenção para todos, mudando de lado a cada três músicas. Mesmo com a boa vontade do artista, a “plateia A” (mais populosa do ambiente) acabou sendo privilegiada, tanto pela interação de Father John quanto pela qualidade de som, reclamação dos poucos que compraram “entradas extra” para ficar do “lado B”. Mesmo assim essas dificuldades não tiraram o brilho da apresentação.

Os fãs de todas as fases de Father John Misty não tiveram do que reclamar. Apesar das canções de God’s Favorite Customer (2018) dominarem o setlist, o show contemplou os quatro álbuns de estúdio de forma equilibrada, a começar pela abertura com duas canções de Fear Fun (“Nancy From Now On” e “Only Son of the Ladiesman”) e uma de I Love You, Honeybear (“Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins)”).

Até a quinta música, “Mr. Tillman”, Father John estava contido, concentrado em tocar, até que os primeiros gritos de maravilhoso (ou elogios a seu bumbum) fizeram com que ele falasse, justamente para comentar que tinha demorado até pra alguém elogiar sua beleza. Modéstia, de fato, não é muito o forte dele.

Seus movimentos no palco eram suaves, como se ele tivesse flutuando. Alternando dancinhas discretas em que deslizava pelo piso de madeira do auditório com suas botinhas, com caminhadas com as mãos nos bolsos de seu paletó – como um verdadeiro crooner -, e até momentos em que cantava de joelhos, aumentando a melancolia na prosa do antigo “cliente favorito de Deus”. Por falar em melancolia, “Bored in the USA” e “Please Don’t Die” já valeriam o ingresso.

O elogiado Pure Comedy (2017) contribuiu com quatro músicas, duas delas apareceram juntas e renderam um dos grandes momentos da noite: “Total Entertainment Forever” e “Ballad of the Dying Man”, esta segunda executada com uma perfeição assombrosa. Aliás, as camadas sonoras das canções de Father John – principalmente dos dois últimos álbuns produzidos por Jonathan Wilson -, foram reproduzidas no palco de forma (quase) fiel. Só não ficaram 100% pela ausência de uma saxofonista na banda. O que sobrou de teclado, faltou em sopros.

Pra quem já estava satisfeito após 16 canções do set regular, que foi finalizado com “God’s Favorite Customer” e “I Love You, Honeybear”, o bis ainda reservou um presente.

Em “So I’m Growing Old on Magic Mountain”, Tillman pediu para o público se fundir a seus pés em cima do palco. E não foram apenas os fãs que foram surpreendidos pela atitude, produção e seguranças tiveram que se desdobrar para que nada desse errado. Um dos roadies parecia não acreditar naquilo, segurando o violão da próxima música com olhar de desaprovação. Azar dele, sorte nossa.

De forma civilizada, os pouco mais de mil presentes se acomodaram ao redor de Father John e sua banda, numa espécie de ritual hippie moderno. Cena que valeu cada rajada de vento na fila do ingresso, e serviu como um abraço bem quentinho em um dos domingos mais gelados do ano na capital paulista.

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