Hangovers: por um mundo mais sujo

O nome sugere uma farra (ou o que sobra dela) e a proposta é daquela urgência crua que faz você botar o disquinho para tocar no repeat. Disquinho não, EP, coisa boba, rápida, digerível em pouco menos de 14 minutos e meio.

Assim é um pouco do Hangovers, power trio recém inaugurado da cena gaúcha, donos de uma corrosiva combinação de duas guitarras e uma bateria. Os Hangos Liege Milk, Theo Portalet e Gabriel Lixo são das antigas da cena local e estão volta e meia envolvidos nos mais diversos tipos de manifestações das redondezas.

Esse formato, obviamente não comum num rol de bandas que aprovam a soma vocal + baixo + guitarra + bateria, para citar o mínimo, o Hangovers já nasceu despreocupado com relação à matemática dos itens. A baterista Liege, que, olha só, faz o baixo no Loomer (também expoente da efervescência gaudéria), comenta: “A gente pensava num(a) baixista, mas simplesmente não fez falta. Usamos afinações graves, a bateria é bem marcadona e trabalha bastante com as guitarras. Daí ficou assim, power trio mesmo. Sem preconceitos.” Quando você ouve o Hangovers, vê mesmo que o baixo não faz falta e que, talvez se estivesse lá deixaria a banda sem aquele quezinho de diferencial. Diferencial também é o fato de não haver vocalista; outro ponto para eles, que nunca nem cogitaram a hipótese de ter um. Afinal, pra que estragar o som com as letras?

E não é que o Hangovers está chegando pra deixar todos meio atônitos e pra todo mundo ficar pagando um pau, dizendo que eles estão naquele momento “a grande novidade da semana”. Eles estão pegando a crista dessa onda noventista que finalmente aflora na mídia e na cultura pop e começaram fazendo bonito. Um bonito meio assim, tosco, selvagem.

Também pudera, as influências que eles citam e tocam são daquela turminha do barulho (Kyuss, Nirvana, Melvins, Helmet) que devolveu ao rock o espírito jovial e anarquista que tinha adormecido na chatice bipolar pós-punk/new wave de boa parte das bandas dos 80. Todo o saudosismo da década passada está nos detalhes, como os nomes das músicas “Chico Bento vai ter sua vingança em Seattle” e “Positive Creep”, associações diretas ao maior ícone da geração grunge (nem precisa citar o nome), “Puta de Óculos”, efusivo número para “saudar” esse tipo incomum de trabalhadora da noite – a banda diz que ela existe e até gostaria de convidá-la para uma dança durante os shows. “Eis-me aqui a suar tal qual um suíno” e “O Senhor está Despedido”, nomes aleatórios mas cheios de alusões que caíram como luva dentro de toda a proposta.

O ar do sarcasmo e talvez grande sacada do Hangovers para esta primeira impressão em 6 faixas é “Mólon e o Grunge Universitário”. Eu não sei o que é mólon, até procurei mas talvez seja mais um vocábulo gaúcho. No entanto, sei muito bem o que e como seria um grunge universitário. Não vou gastar as palavras definindo este novo espécime da cultura alternativa – num raciocínio livre e com um pingo de ironia, dá pra dizer, no mínimo, que o grunge universitário pode ser encarado como o grunge da Renner – mas há de se dizer que o batismo com maestria desta faixa diz mais sobre o Hangovers do que muitas outras palavras: acidez em estado bruto.

Ouça aqui Bebendo Socialmente, o EP de estreia do Hangovers

[TEXTO: Mariângela Carvalho FOTOS: Divulgação]

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