Jonathan Wilson fala sobre seu novo disco (Rare Birds), a turnê com Roger Waters e como foi trabalhar com Lana Del Rey

Aos 43 anos de idade, o americano Jonathan Wilson está cansado, mas realizado. Em apenas seis meses, ele teve que encarar o desafio de produzir simultaneamente os discos de Father John Misty (“Pure Comedy”), seu novo trabalho solo (“Rare Birds”) e de Roger Waters (“Is This The Life We Really Want”).

E foi convivendo com Roger Waters durante este período que surgiu o inusitado convite de fazer parte da banda de apoio da turnê de “Us+Them”. “Era algo surreal ter o Roger todos os dias na cozinha da minha casa, e durante a gravação do disco ele me fez o convite de viajar com ele e eu pensei que poderia ser muito divertido”.

A partir daí o desafio foi conciliar a agenda insana de Waters com a sua própria, para divulgar Rare Birds, um dos melhores discos lançados neste ano, que além de ter sido bem recebido pela crítica, conseguiu acalmar um pouco o inquieto Wilson, que depois de muito tempo experimentando todas as nuances psicodélicas em seus trabalhos anteriores, finalmente encontrou o caminho criativo que procurava. “Percebi que o único caminho e a única maneira de encontrar o que eu queria foi realizar uma combinação de todas as coisas que eu fiz, de todos os lugares que estive, das bandas de jazz dos anos 80”.

Em sua passagem por São Paulo, Jonathan Wilson falou sobre sua turnê ao lado de Roger Waters, as mensagens anti Bolsonaro nos shows, seu trabalho como músico e produtor e como foi convidar Lana Del Rey para cantar em seu disco.

Você me parece ser um músico que cresceu ouvindo e sendo influenciado pela música do Pink Floyd, e agora você tem a oportunidade de viajar ao lado da banda tocando as músicas junto com Roger Waters. Como é ter essa sensação de estar realizando um sonho?

Definitivamente tem sido uma experiência realmente ótima. E quando eu era criança e eu estava crescendo, era como se você soubesse que seu estilo de tocar guitarra, de alguma forma era semelhante ao de David Gilmour, temos um estilo parecidos. De alguma forma sempre fez sentido pensar que gostaríamos de estar junto com ele, tocando em sua banda.

Estava eu e minha namorada jantando, falando a respeito disso, e desde que comecei a fazer o disco junto com o Roger Waters, e na sequência ele me convidou para viajar com ele, acabou sendo uma dessas coisas que muda a sua vida. Desde então, nós estivemos em todo o mundo, algo que já faço com o meu trabalho pessoal, mas isso tem me dado uma perspectiva diferente do que a minha vida na Califórnia e tem sido muito educativo para o está por vir.

Além do seu trabalho como diretor musical e guitarrista das turnês do Roger Waters, você também participou de seu último disco, “Is This The Life We Really Want?”. Como foi trabalhar com ele no estúdio?

Trabalhar com ele foi ótimo desde que tivemos o primeiro contato, quando nos conhecemos. No segundo dia de gravação ele me ligou e me pediu para tocar guitarra no novo disco, e ele ficou muito animado com alguns solos que toquei e então nós continuamos trabalhando. Aí mudamos para o meu estúdio, onde trabalhamos por uns seis meses ou algo assim. E era uma viagem ver ele todos os dias na cozinha da minha casa, e foi assim que nos tornamos bons amigos, as coisas fluindo, até que ele me fala “talvez seria legal você entrar na minha banda, fazer uma turnê”. Foi algo que eu não estava esperando, mas me soou que poderia ser muito divertido.

Durante o primeiro show de “Us + Them” aqui no Brasil, todas as mensagens anti Trump e contra o fascismo prestes a ser instalado aqui no Brasil com a possível vitória de Jair Bolsonaro nas eleições causaram uma reação negativa em parte do público. Qual é a importância de momentos como este nos shows? De cima do palco você conseguiu sentir a reação da plateia, especialmente daqueles que se sentiram desconfortáveis?

A gente podia sim dizer que algo estava acontecendo ali. O que quero dizer é que este sempre vai ser o estilo de Roger, o que ele sente. Tentar escondê-lo ou tentar suavizar não é o que ele quer.

O que quero dizer é que situação aqui é um pouco mais complexa do que a dos EUA com Trump. Vi muitas e muitas reações de que você não gosta do cara de ambos os lados, boas e ruins. Eu mesmo não gosto de fingir ser especialista, o que está acontecendo, mas este é o tipo de concerto que você sabe o que esperar.

Sabe a expressão “par of the course” (expressão usada quanto um tipo de comportamento, situação ou evento não é boa, mas é normal ou que você espera)? É o tipo de coisa que tem acontecido em todo o mundo com todo o tipo de coisa, sabe?

Ainda sobre viajar o mundo em turnês, você acabou de promover Rare Birds na Europa e Estados Unidos. Como foi a recepção do público? E como você conseguiu conciliar a sua turnê com a agenda do Roger Waters?

Antes de tudo, a agenda é incrivelmente insana porque eu tive que sair da minha turnê para turnê dele e vice-versa, e estou desde janeiro viajando. Já foram 29 semanas sem pausa, e agora dá para aproveitar um intervalo de mais ou menos 17 semanas, mas eu gosto da reação das pessoas curtirem meus trabalhos, tem sido as melhores possíveis. Basicamente é como se finalmente tivesse chegado a algum lugar e tem sido bastante divertido.

Você participou em quase todos os discos do Father John Misty, e em algumas entrevistas você disse que “Rare Birds é como se fosse uma irmã de Pure Comedy”. Você pode falar mais sobre esta amizade e parceria com Josh Tillman? Como você fizeram estes dois discos praticamente ao mesmo tempo e como eles se completam?

Ele é um dos meu melhores amigos e temos trabalhados juntos desde 2010. Nós basicamente começamos a trabalhar nele juntos, no meu estúdio, só nós dois. E ele escreveu todas as músicas, toca bateria, canta e eu toquei todos os pianos, baixo e guitarras, foi mais ou menos assim que começou.

Não sabíamos se ia sair algo dali, se ia ser algo bem maior ou bem sucedido. Nós estávamos no tempo certo, lugar certo, ele tinha lindas canções, mas canções realmente fantásticas e, sim, é verdade que Rare Birds e Pure Comedy foram feitos no mesmo período, e muitas vezes foi muito difícil pra mim, porque eu ainda tive que fazer todo o trabalho com o Roger durante este tempo.

Então você sabe, às vezes eu estava muito animado para voltar às minhas próprias coisas, mas eu tinha todas essas outras para fazer. E você acaba testando, e eu já estava sem paciência e cansado, mas no fim acabou por ser a melhor coisa, porque o álbum do Josh acabou sendo nomeado ao Grammy, coisas que eu nunca teria.

O álbum do Roger, meu álbum, do Josh foram feitos no mesmo estúdio, na mesma mesa de som , as mesmas guitarras, mas todos eles soam como o meu estúdio, então é desta forma que eles estão todos conectados.

Foi com Rare Birds que você alcançou uma audiência bem maior. Você acha que com este disco você conseguiu fazer o estilo de música que sempre quis? Existe alguma explicação para este sucesso de Rare Birds comparado com seus outros discos?

Sim, eu acho que sim. Porque eu realmente tive que cavar fundo e descobrir o que viesse, como chegar e alcançar coisas mais pessoais. Descobri que só precisa ser o meu próprio som, com um som puro que tinha a ver com minha personalidade.

Porque passei muito tempo tentando replicar os anos 70, fragmentos dos anos 60, em como encontrar o som psicodélico perfeito, o fuzz, a bateria, eu comecei a perceber que aquilo é como como se fosse pequena camada de penugem psicodélica.

Então percebi que o único caminho e a única maneira de encontrar o que eu queria foi realizar uma combinação de todas as coisas que fiz, de todos os lugares que estive, das bandas de jazz dos anos 80, tem um monte de coisas desses fragmentos que você pode encontrar quando ouve Rare Birds.

Você escreveu no seu perfil da Instragram que Rare Birds significava “mais como um caso de cura, um rejuvenescimento, uma reconciliação para os outros, para mim… Eu queria equilibrar a narrativa pessoal com a necessidade que sinto em 2018 para músicas tranquilas de cura. Eu acho que nós precisamos desse surrealismo caprichoso, jornadas no som, affairs psicodélicos que eu tenho”. Você pode nos contar um pouco mais sobre a concepção do álbum?

Várias músicas foram escritas em Los Angeles durante um tempo que eu estava solteiro, gostava muito de sair, de entrar e sair de vários relacionamentos e você encontrar muito disso, sobre como se apaixonar, ficar de coração partido e sendo rejeitado. Você um encontra um pouco disso, então eu só queria que não fosse realmente um conceito que você já conhece, mas foi como se você soubesse que eu estava procurando resolver este algoritmo. Foram várias músicas e no final ficaram apenas 13, que foram realmente difíceis de serem colocadas lá. Mas quero dizer que eu sou o homem no conceito do disco e o título é como se as pessoas fossem pássaros raros, que elas juram te entender e você sabe que existem coisas mágicas na Terra.

Para você, passar muito tempo no FivestarStudios é como uma bolha de segurança para evitar toda essa vida e relacionamentos falsos de Hollywood?
Quando você passa muito tempo no seu hotel cinco estrelas, o estúdio funciona como sua segunda bolha, para evitar toda aquela vida, relacionamentos falsos de Hollywood, as festas e coisas assim. Mas quando fizemos esse álbum foi como se estivéssemos em uma festa, tivemos muitas e muitas sessões que viraram a noite, então é essa foi uma forma de atravessar todo este sentimento de Hollywood. Quero dizer que o estúdio é definitivamente um lugar único, uma casca de amendoim, um espaço seguro longe de todos nestas “brigas” de Hollywood.

Você também trabalhou com Lana Del Rey, ela canta em “Living WIth Myself”. Como você chegou a ela? Quando e onde vocês dois se conheceram e como foi para você trabalhar com uma popstar como ela?

Nós gostamos de manter contato sempre, ela sempre este me acompanhando desde os primeiros discos. Então ela muito sobre todo o processo criativo deste álbum e estava por perto quando eu fiz as músicas. Quando estava tentando escolher quais das músicas gravadas, as demos e tal, ela teve uma sensação muito boa, como se fosse um pressentimento de qual seria perfeita para ela cantar. Ela é extremamente talentosa e sabia que a voz dela soaria muito bem em “Living With Myself”, foi a música perfeita para ela, e eu meio que gosto desta tristeza distópica que ela tem. Ela é uma das minhas melhores amigas, e quando eu mostrei todas as outras músicas do disco, nós sabíamos que esta era a única que fazia sentido cantar no álbum. Ela canta em todos os outros, mas esta foi perfeita para ela cantar.

Co-fundador e editor do Urbanaque.com.br e Birrinhas.com

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