Quarto Negro lança seu primeiro disco e busca reconhecimento

Da simplicidade das primeiras demos ao misto de sensações presentes no EP Bom Dia Lua e passando pelos três anos até a construção de Desconocidos, se torna evidente que todos os caminhos levariam o Quarto Negro a um ótimo álbum.

Marcado por uma sensibilidade artística única, versos e melodias amargurados e pela diversidade sonora, a estréia do trio formado por Eduardo Praça (voz e guitarras), Fabio Brazil (voz e baixo) e Thiago Klein (voz e piano) resume da melhor maneira possível a carreira do Quarto Negro, revelando uma banda pronta para se tornar um dos bons nomes da música nacional.

Em entrevista ao Urbanaque, Eduardo Praça demonstra satisfação com o resultado de seu trabalho, confiante com a proposta adotada e preparado para o que os espera. Confira abaixo:

Você era integrante do Ludovic, certo? O que há do Ludovic no Quarto Negro?
Entrei no Ludovic aos 16 anos e nunca mais parei. Desde lá tudo foi muito intenso, e gradativamente me desliguei de quase tudo que não envolvesse a esfera artística. Não acho que o Quarto Negro seja semelhante musicalmente, mas creio que há muita autenticidade e seriedade em ambas as obras, o que me deixa muito orgulhoso.

O que fez vocês saírem do Brasil para gravar o primeiro disco? Quais os motivos levaram a Barcelona?
Quando começamos a preparar o disco, sempre pensamos que seria muito bom pra banda fugir um pouco de tudo, desde a atmosfera bucólica da música no Brasil até qualquer rotina pessoal que tínhamos. Um dia voltei pra casa e busquei na internet algum estúdio em Barcelona, achei, mandei um email e fui dormir. Um mês depois, estava com o Thiago em Barcelona conhecendo o estúdio, comendo pão com tomate e assinando um acordo pra lançarmos nosso disco por lá com a gravadora que controla o estúdio. Foi rápido e empolgante!

Como ocorreu o processo de gravação? Vocês chegaram lá com o disco pronto?
Levamos algumas músicas prontas e alguns esboços. Nos primeiros meses, enquanto trabalhávamos os arranjos, remodelamos quase todas com o nosso produtor Marc Molas, algumas mais que outras, mas todas passaram por mudanças. E aí durante as gravações, incluímos algumas faixas de última hora, “Vesânia II (Delírio Mútuo)”, por exemplo, surgiu nos acréscimos.

De que formas a cidade e a estadia por lá influenciou?
De uma forma geral, Barcelona influenciou muito. Nos entregamos muito no disco, todo mundo abandonou alguma coisa pra poder ir lá gravar, e tudo começou a transparecer em alguma parte do processo. Lembro de escrever muito ao ler poesia catalã que o Marc me emprestava e não tenho dúvidas que algo influenciou também os meninos, seja pela rotina entre a gente ou entre eles e a cidade.

De uma maneira mais geral, notei um pouco de blues e até jazz nas composições…
Quando comecei o Quarto Negro, eu estava em uma fase de pesquisa sobre os primeiros cantores negros norte-americanos de blues, aquela coisa do Skip James, Son House e outros ali do Mississipi, então posso dizer por mim que existe algo do Blues sim. Sobre o Jazz, isso vem do Thiago e do Fabio, sem dúvidas. Sei que eles ouvem algo como Nina Simone, Dave Brubeck, Miles Davis… E o fato de serem os responsáveis por piano e baixo, contribui muito pra isso.

Em “Vesania I (Cabo Horn)” é citado um trecho de “O Velho e o Mar”, do Hemingway. Até que ponto literatura é uma influência?
É bastante influente. Durante a gravação de “Desconocidos”, li muito mais livros do que ouvi discos. Sou uma pessoa muito curiosa sobre o tema marítimo. Gosto muito de embarcações, cruzadas, barcos e viagens, e “O Velho e o Mar” sempre foi meu livro predileto. Seria uma desfeita não colocar uma homenagem à ele no disco. Também li muito Fernando Pessoa, Henry Miller, William Blake e algumas coisas do Woody Allen, em específico um livro fantástico que se chama “Para acabar de vez com a cultura”.

Os clipes de vocês sempre chamam a atenção pela excelente produção. E “Vesânia II (Delírio Mútuo)” não foge a essa característica…
Esse clipe aconteceu em um processo diferente. Não estava nos planos fazer um clipe tão rápido pra essa música, mas tudo conspirou pra isso de forma muito inusitada. Estava em Nova Iorque em um hotel que tinha uns papéis de paredes lindos e esbocei um roteiro na minha cabeça que se passava em um quarto de hotel. Simultaneamente, estava trocando emails com o Mr. Chill, que também fotografou a capa do álbum e sugeri que ele fizesse alguns vídeos em Strasbourg na França, local onde ele vive. E daí foi tudo muito rápido, uma semana depois ele estava filmando com a modelo em um hotel da região. O resultado ficou ótimo e surpreendente. Mandamos cinco faixas do álbum pra ele filmar e ele captou exatamente os sentimentos que tínhamos, mesmo que nunca fomos muito explícitos com nenhuma canção em específico.

Aliás, quanto a “Vesânia I (Cabo Horn)” e “Vesânia II (Delírio Mútuo)”, elas me soaram realmente diferentes entre si.
São duas músicas que tratam basicamente do mesmo tema, mas com abordagens distintas. Uma mais saudosista e furiosa e a outra um pouco mais intensa e climática. Nunca parei pra pensar, mas acho que se deve muito à parceria que tenho com o Thiago nas composições, onde cada um consegue colocar um pouco da sua característica em cada tema.

Algo que também me chama a atenção é que as canções sempre soam melancólicas, mas dificilmente caem no lugar comum da tristeza excessiva. Como vocês conseguem fugir disso? É algo pensado ou espontâneo?
Definitivamente é algo espontâneo. Nunca planejamos soar de um determinado jeito, principalmente por que não existe uma grande unanimidade musical entre nós. Eu chamaria o disco muito mais de nostálgico e esperançoso do que melancólico, mas talvez uma coisa esteja ligada a outra. De toda forma, ainda prefiro ser referência para a melancolia do que pra qualquer tema engraçadinho e/ou palhaço.

O disco, como um todo, demonstra uma sensibilidade artística rara hoje em dia E tenho a sensação de que não é um álbum que retrata em suma experiências pessoais – lógico, elas estão presentes, mas o que quero dizer que não é um retrato falado em primeira pessoa. Como conciliar esses dois elementos tão opostos?
Fico feliz, por que sempre acham que é algo autobiográfico, soa muito pessoal as coisas que escrevo. Mas em sua maioria, escrevo muito mais sobre coisas que vejo, sobre amor próprio-alheio, empreitadas frustradas e sonhos. Musicalmente e liricamente, lembro de sentar com o produtor e a banda e contar uma idéia que tive, de contextualizar as músicas e os climas com um estado febril, desde os primeiros sintomas, ao delírio e por fim a cura. Talvez soe pretensioso, mas tivemos muito cuidado ao construir as músicas e arranjos em torno desse raciocínio.

Em “Quando O Mar Não Vem”, há um naipe de metais que se encaixa perfeitamente com os vocais…
Essa é a música mais antiga do disco. Quando o Thiago me mostrou esse esboço, acho que nunca imaginávamos tudo que estaria por vir. Ela deu muito trabalho e ainda dá, mas sempre respeitamos muito ela. É outra com o tema marítimo e esperançoso e me remete muito aos dias em Barceloneta, a praia local. Os sopros sempre nos cativaram. Seria um pecado não explorar isso no disco, e de todas as faixas, antes das gravações, parecia que os sopros estavam sempre lá. Você ouve o som dos trompetes, mesmo em sua ausência. É meio maluco, mas funciona quando se está seguro da sonoridade.

A que mais me soou fora de lugar – e isso, claro, não é uma critica – foi “Do medo ao medo”. Acho que por flertar com a musica eletrônica. Até acredito que isso traz um ar de novo ao trabalho da banda.
É exatamente isso. O Thiago cresceu ouvindo música eletrônica, e embora hoje em dia tenha se diversificado, ainda ouve bastante. A melodia de wurlitzer vem de lá, e sua estrutura também. A gente apelidou ela de “disco disco” durante as gravações e foi a única que carregou essa alcunha. Acho providencial se diversificar entre o disco mesmo, não só em cada álbum. Quanto a letra, escrevi inspirado em um poema de um livro do Vinícius, direto e rasteiro, chamado antologia poética.

Já em “Socorro”, me chamou a atenção o arranjo de cordas – e especialmente o violoncelo. Achei E foi a que mais me fez remeter a Espanha.
“Socorro” também foi uma das primeiras que compusemos para o disco e conta a história de um casal de conhecidos que passava por um impasse na época. Escrevi ela em um violão dos avós do Thiago, antiguíssimo e sem afinação, em uma véspera de ano novo, e soava tão bonito e ingênuo que quis preservar isso na gravação, buscando um violão de flamenco pra gravação. As cordas também sempre foram objetos de fascínio. Colocaríamos uma orquestra inteira se fosse possível, e ainda espero fazer isso um dia em alguma obra. Tivemos influências marcantes de música clássica em Barcelona. Muito desse disco vem de “Os planetas” do Gustav Holst e da obra e do caso com a Coco Chanel do Stravinsky. Sério.

Se me pedissem para definir o álbum diria algo como “um registro para pessoas que sofrem e não se importam em expor seus medos”. E você?
O medo não é mais medo quando não se sabe quem o medo é. Não acho um álbum muito sofrido. Considero como uma obra exorcizada de mitos e vícios, sincera e única de faixa a faixa. Felizmente não tivemos a negatividade dos anos 90 e nem o virtuosismo de outras décadas, assim ainda espero ser lembrado e respeitado pela autoria de um álbum passível de um bom legado.

E quanto a recepção do trabalho? Está sendo como vocês esperavam? Quais os próximos passos?
Está sendo realmente positiva. Não gosto daquele falso moralismo do “não esperava isso” ou “tudo foi tão despretensioso”. Realmente investimos cada centavo de alma nesse disco, e as primeiras pessoas que assimilam o valor da obra somos nós. Espero ter oportunidade de levar nossas músicas à todos que se interessem por música e arte da forma mais sincera possível.

Site oficial da banda: www.quartonegro.com.br

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[TEXTO: Murilo Basso FOTO: Peu Rodrigues]

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