Rashid explora HQs e animação em “Não É Desenho”, produzido pelo estúdio Miopia

Rashid abre 2019 soltando “Não É Desenho”, música nova na qual mergulhou na cultura geek para trazer as referências no som e no vídeo, um clipe em animação num clima um tanto stoner que coube muito bem ao estilo do rapper. Com desenhos e direção de arte do estúdio Miopia, o vídeo combina poucos traços (algo entre Them Crooked Vultures e Sin City) à paleta reduzida a quatro cores jogando com sombra e (pouca) luz para acompanhar o peso do grime proposto pela batida.

Aliás, esse peso está em toda a produção, na letra densa de Rashid, na captação das imagens e na ideia de lembrar que o rap tem muitas faces, que vão das paradas de sucesso às ruas escuras. Aqui, Rashid se deu bem ao se aliar à assinatura dos desenhistas do clipe, Gustavo Magalhães e Carol Maia, do estúdio Miopia,  conhecidos pelo bom gosto com que desenvolvem variadas peças de merchandising e artes para bandas nacionais e gringas, tendo inclusive assinado a arte do livro “Ideias que rimam mais que palavras – Vol.1” que o rapper lançou no ano passado.

Entre as conversas sobre o livro, bolar um som que pudesse conversar com as vastas influências de filmes, quadrinhos e heróis de Rashid e dos desenhistas parecia uma boa ideia para um novo formato de clipe. O rapper explica a sua relação com o mundo dos quadrinhos e como isso influenciou a sua carreira:

PAIXÃO POR QUADRINHOS
“Eu nunca fui um cara muito dos heróis, porque pra acompanhar quadrinhos de heróis você precisava estar sempre comprando e sendo frequentador assíduo das bancas. Eu tentava acompanhar mas não conseguia, por falta de grana na maioria dos casos. Mas acompanhava os personagens que gostava de longe. Sempre tive uma queda maior pelos X-Men.

Depois de mais velho, frequentando livrarias ou bancas mais especializadas, descobri os volumes únicos, que continham histórias incríveis e a vantagem de não começarem e acabarem numa única compra.
Uma das minhas melhores descobertas, já recente, foi o Habibi (Craig Thompson). História forte.
Hoje eu posso ir atrás das coisas que antes só podia acompanhar de longe. Nas HQs, mangás, filmes, etc… Faço questão também.”

CULTURA NERD E HQS COMO INFLUÊNCIA

“Quando eu entrei no Hip-Hop, foi através do Graffiti. Meu sonho era ser tipo Os Gêmeos, viajar pelo mundo fazendo minha arte (visual, no caso) e sendo reconhecido por isso. Queria fazer Graffiti porque eu já tinha uma paixão por desenhar, que nutria desde criança, inspirado pelos desenhos da TV, pelos animes que ia descobrindo, depois os quadrinhos, etc. Depois de um tempo, meu sonho migrou pra música, mas meu gosto pelas artes visuais não ficou por ali. Não é difícil você ouvir numa música minha, uma metáfora relacionada à cultura geek.

Especificamente nessa nova, “Não é Desenho”, essa influência é presente desde a concepção da letra ao clipe, que teve como ponto de partida o clima de Sin City. Mas eu tenho uma música chamada Musashi (piro na cultura dos samurais) e muitas das informações/contato que tenho com o legado dele, vieram do livro de mesmo nome e do Vagabond. O clipe de Musashi tem cenas inspiradas em Kill Bill também. Desses mangas e animes mais Pops, até coisas menos badaladas (pelo menos no meu universo) tipo Nausicaa, Parasyte e por aí vai, sempre uso essas referências na minha arte. É quase como uma forma de agradecer pela inspiração.

Obviamente, também acompanho o desenrolar das peripécias do Universo Cinematográfico da Marvel e sempre estou disposto a dar mais uma chance a DC, que no cinema ainda tá correndo atrás. Disseram que Aquaman é bem loko, inclusive, mas até a data dessa entrevista eu ainda não tive a chance de assistir.”

Um vídeo feito na base da raça, persistência e correria

Sem ter experiência alguma com o mundo da animação, o clipe de “Não é Desenho” foi feito na base da trinca “raça, persistência e correria”. Gustavo e Carol aprenderam na marra a técnica da rotoscopia e passaram boas horas ilustrando os mais de 2750 desenhos do clipe.  Gustavo conta um pouco de como o foi todo o processo:

ROTEIRO

“Depois que a gente fez o livro “Ideias que rimam mais que palavras – Vol.1”, eu e o Michel ficamos conversando, jogando conversa fora sobre quadrinhos, clipes, e um dia eu comentei “pô, porque a gente não faz um clipe de animação?”. Ele gostou da ideia e me perguntou se eu sabia fazer, e eu disse “nunca fiz, mas acho que dá pra fazer, animar em um estilo oldschool, dá pra dar um jeito”.  Aí eu peguei o clipe de “Música de Guerra”, separei os frames e desenhei por cima, a tal da rotoscopia. Fiz um clipe de 3 segundos e ele gostou e não passou nem uma semama, eu recebo a música de “Não é desenho” para ouvir.

Desde o começo a gente queria ter uma estética urbana, nunca chegamos a falar sobre a questão do roteiro. Teve um cara que trabalhou com a gente chamado Jean Furquim, da Giramundo Filmes, que fez a parte da filmagem e direção junto comigo. Nossa ideai foi colocar o Michel em um ambientes urbanos, como estacionamentos, e fazer a inserção do acervo do Jean e eventualmente das coisas que a gente captou. Aí nos encotramos, tivemos as ideias e filmamos tudo no estacionamento do meu sogro, as escadarias, sequências dele andando, uma cena externa com ele andando de biclicleta e outras imagens foram todas do acerto do Jean, que cuidou da parte da edição.”

ESTÉTICA

“Uma coisa que a gente sempre falou muito como referência pessoal foi Sin City, aquele quadrinho mais urbano, todo monocromático, preto e branco ou todo vermelho. Então essa ideia vem muito junto com a gente no trabalho do Miopia, eu e a Carol gostamos muito de usar vermelho e o amarelo, preto e branco, igual está no clipe, então foi algo meio tranquilo porque além de já gostarmos, isso já fazia parte do nosso trabalho. Tem tabém a estética mais suja, meio glitch, ela veio na mesma onda porque já era algo que tem muito a ver com o trabalho do Miopia, algo que já se encaixava melhor. Todo o lance foi “do it yourself” mesmo, fomos aprendendo enquanto estávamos fazendo, nunca tinhámos feitos nenhuma animação ou desenhado muitas vezes o mesmo tema.”

TÉCNICA

“Usamos um método chamado rotoscopia, que é você desenhar por cima dos frames, igual o pessoal fazia antigamente. O Jean mandou o filme em 12 frames por segundo e eu e a Carol fizemos o trabalho em cima. Muitos desenhos foram feitos diretamente nas imagens, outros foram sendo adaptados, mas basicamente nós fizemso tudo isso juntos, foram mais de 2750 desenhos. Resolvemos fazer um por um para ter este lance orgânico do clipe manual, né? Alguns desenhos foram feitos direto no computador, outros fizemos mixados, mas todos foram desenhados com referências nas imagens. Para animar, bom, a gente nunca tinha feito nada, e eu nem considero uma animação, foi tudo no Photoshop mesmo, sequenciamos as imagens e colocamos a “track” em cima. É igual quando a gente era criança e ficava virando folhinha de papel na mão, foi bem artesanal mesmo. Não teve nada além disso.”

CORES

“O que foi definido é que a gente usaria um preto bem forte, justamente para dar um ar mais urbano e pesado, mas não pesado de forma negativa, mas porque a música vem bem mais pesada em alguns pontos. Usamos várias sombras carregadas em algum momento, brincou com as cores para mudar uma estética ou outra como na parte da escada onde o fundo é vermelho e branco, no estacionamento que é bem mexido e muda muito, a parte da bicicleta é bem vermelha com o desenho todo preto ou então na parte da parede, que pra dar a impressão de uma luz meio saturada ele tá bem amarelão no fundo, e por aí vai.”

 

Co-fundador e editor do Urbanaque.com.br e Birrinhas.com

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