Storm Saulter fala sobre trabalho com o Arcade Fire (Peter Pan) e cinema jamaicano

Ao som dos remixes de “Peter Pan”, feitos por Equiknoxx Music e Jeremy Ashbourne, o cineasta jamaicano Storm Saulter criou uma versão caribenha moderna da história clássica de J. M. Barrie, de 1911, para o mais novo vídeo do Arcade Fire, tirado do álbum Everything Now, lançado pelos canadenses em julho de 2017.

Saulter cresceu em Negril, na Jamaica, e é atualmente um dos maiores expoentes do cinema jamaicano (e caribenho), ganhando destaque internacional com o longa “Better Mus’ Come” (2010). Vindo de uma família de criativos, o cineasta sempre foi apaixonado por arte e fotografia, caminho natural até chegar no cinema. “Depois do colegial, me mudei para Los Angeles para cursar a Escola de Cinema de Los Angeles, trabalhar como Assistente de Produção e apenas para obter o máximo de experiência possível com filmes”, contou o diretor em entrevista exclusiva ao URBANAQUE, que logo em seguida se mudou para nova York e passou a trabalhar com clipes de hip hop, enquanto trabalhava em seus próprios roteiros. “Comecei a fazer videoarte e a mostrar meu trabalho experimental em galerias e museus.”

Quando retornou ao seu país, para renovar o visto americano, teve o estalo de começar uma cena local, como ele próprio contou, para “poder contar histórias da minha terra natal e da minha região, em vez de subir na carreira para contar histórias americanas”.

“Me reuni com outros jovens cineastas e começamos o que agora parece um movimento real no cinema caribenho. Fizemos muitos curtas-metragens e até começamos um festival de cinema chamado ‘Flashpoint’. ‘Better Mus’ Come’ foi um grande avanço por muitas razões. Ele foi aclamado pela crítica e recebeu distribuição internacional, uma versão teatral, estava na Netflix e na BBC, mas também era incomum, pois era uma peça do período sobre uma época na história da Jamaica que minha geração não foi ensinada e que muitas pessoas queriam esquecer: a Guerra Fria. Esse período de tempo desestabilizou meu país, como tantos outros países da região e da América Latina, e ainda estamos sentindo as repercussões”, afirmou.

Sempre trabalhando para o desenvolvimento da cultura da Jamaica e do Caribe, Storm Saulter fez um registro real e puro de uma balada dancehall para “Peter Pan”, do Arcade Fire. Destacando dançarinos e artistas locais, e mostrando (mais uma vez) ao mundo a beleza da juventude de seu país, explorando a noite e suas nuance. Abaixo o diretor fala mais um pouco sobre sua parceria com os canadenses e seu novo filme, “Sprinter”, destaque no American Black Film Festival, em Miami, nos Estados Unidos.

URBANAQUE: Você usou apenas artistas jamaicanos no clipe, assim como toda a equipe técnica. Qual a importância de trabalhos como esse pra fortalecer o cinema da Jamaica e do Caribe?
Storm Saulter: Existe uma nova onda de cineastas e talentos criativos emergindo em toda a região [do Caribe]. No cinema, música, literatura, dança. Artistas de todas as partes do mundo, incluindo o Arcade Fire, são influenciados pela cultura jamaicana do passado e do presente. Eles têm um som verdadeiramente global, e pegando esse som e interpretando-o visualmente através desta cena local muito específica, acho que amplia a maneira como pensamos sobre sua música e a música em geral. Não há limites e infinitas maneiras de inspirar e se inspirar. Além disso, quando os jamaicanos criam, executam e capturam o visual, o espectador fica inserido olhando para fora, em oposição à visão de quem é de fora, que pode ver a Jamaica apenas como mais um belo pano de fundo.

Você praticamente criou uma versão caribenha pra contar o amor de Peter Pan e Wendy, com os maravilhosos dançarinos Maleik Lamont and Rayana Campbell como protagonistas. Fale um pouco sobre a ideia do roteiro do vídeo, o Arcade Fire te deu total liberdade pra criar? Como foi o processo e por que você escolheu registrar uma noite de dancehall?
Como milhões de pessoas ao redor de mundo, cresci com a história do Peter Pan gravada na minha memória. Portanto, não havia como escapar dos temas gerais de aventura juvenil, magia e amadurecimento. Win Butler e eu jogamos ideias de um lado para o outro, mas havia algumas coisas que a banda realmente queria, como as mensagens telefônicas, como uma espécie de conexão mística entre Peter e Wendy. Peter continua enviando mensagens desejando uma resposta, quase como se Wendy estivesse em outro mundo que ele não alcança totalmente. Ele fará qualquer coisa por uma resposta de Wendy. Nós conversamos muito sobre deixá-lo bem Lo-Fi, até consideramos filmar tudo com celulares em um ponto. Então foi combinado com a banda que esta era uma releitura solta de Peter Pan, e eu tinha plena liberdade criativa para executar essa ideia. Há claras influências dub na música e o dub surgiu da cultura do sistema de som, que é a cultura dancehall. Além disso, na Jamaica, muitas vezes a realidade é mais estranha que a ficção. Então, sabia que se colocássemos esses personagens em eventos reais, sem muita iluminação ou interferência, iríamos capturar algo visceral, com texturas, com uma atmosfera real e pura.

Aliás, o clipe de “Peter Pan” é praticamente um recorte atual da juventude jamaicana, que hoje está muito ligada às batalhas de dancehall e a dança. Foi mais uma forma de mostrar essa cultura pro mundo?
Sim, foi mais uma maneira de mostrar esta cultura com jovens de verdade, que vivem dia e noite nas festas de dancehall. Além disso, fazer coreografia dancehall sobre o som de rock experimental do Arcade Fire tinha tudo para parecer novo. Estou sempre interessado em misturar coisas incomuns e aparentemente não relacionadas e ver o que surge.

A estética da noite parece ser algo que te fascina, certo? Em “Reflektor/ Little Haiti”, também do Arcade Fire, você também faz um lindo registro de uma noite de festa e celebração. Queria que você falasse um pouco sobre isso.
Sim, curto muito a escuridão. Na minha arte, fotografia, gosto em filmes, etc. Gosto da liberdade que pode ser encontrada nas sombras, quando você não está em exibição. Ninguém quer dançar quando as luzes são muito brilhantes. Também adoro como postes de rua e letreiros de neon colorem os corpos à noite. Carnaval e cultura dancehall é praticamente toda sobre o reconhecimento e interação do lado da luz e do lado negro. Dançar é uma maneira de liberar seus demônios e levitar a alma. Especialmente quando dançamos no escuro.

Como começou essa parceria com o Arcade Fire?
Conheci Win e Régine em uma festa na Jamaica e depois os encontrei novamente nas ruas de Port of Spain, Trinidad, enquanto curtia o Carnaval. Nós falávamos muito sobre cineastas e artistas de que gostávamos, e desenvolvemos uma verdadeira amizade. Os visitei em Montreal pouco tempo depois e conheci a banda inteira. Então, quando eles vieram para a Jamaica para gravar o álbum do Reflektor, fizemos algumas sessões de fotografia muito legais. Eles assistiram ao meu primeiro filme “Better Mus’ Come”, e sabíamos que queríamos colaborar em um visual em algum momento. “Peter Pan” foi o certo para isso.

Até quando você faz seus trabalhos para publicidade faz questão de resgatar a cultura jamaicana e caribenha e mostrá-la ao mundo, como são os casos das campanhas com o Lewis Hamilton para Puma, ou a propaganda da Clarks Desert Boots, que é praticamente um mini documentário. Isso é quase uma exigência pra você fazer esse tipo de trabalho? Poder mostrar algo além e valorizar a cultura do caribe…
Definitivamente estou em uma missão para contar histórias universais que são colocadas dentro ou “envolvidas” na cultura, linguagem, paisagem e fisicalidade do meu povo caribenho. Faço comerciais e outros trabalhos em todo o mundo, mas criar e trazer o cinema caribenho para o mundo sempre foi uma parte importante do meu caminho como artista e contador de histórias.

Seu novo filme, “Sprinter”, ganhou vários prêmios no American Black Film Festival, em Miami, e é esperado com muita ansiedade por muita gente, principalmente os jamaicanos. Qual a importância de ser premiado em festivais como esses? Como foi participar e brilhar no American Black Film Festival?
Foi uma experiência incrível para o filme ser recebido tão bem em nossas primeiras exibições. É uma sensação muito boa quando você trabalha duro em algo para ele ser tão apreciado. Também é importante quando um filme caribenho consegue se destacar fora dessa região, porque mostra que o trabalho ultrapassou apenas uma história local e passou a fazer parte do cinema mundial. O objetivo é sempre fazer histórias universais, com as quais qualquer um pode se relacionar, independentemente de onde elas vêm. Falando nisso, realmente quero exibir o Sprinter e meus outros filmes no Brasil! É um dos países que mais quero visitar em todo o mundo. Tenho sido fortemente influenciado pelo cinema brasileiro, e acho/espero que o povo brasileiro aprecie os filmes que estão saindo do Caribe.

Sprinter tem Will Smith, Jada Pinkett-Smith and Ne-Yo como produtores. Como você chegou até eles? Poder ter eles ao seu lado foi um passo a mais na sua carreira e uma forma de crescer no mercado americano?
Chegamos a eles através do meu produtor Robert Maylor, que tinha um relacionamento estabelecido com Will e a empresa de Jada, a Overbrook Entertainment. Eles leram o roteiro e o amaram, novamente, porque a história é universal. Além disso, com base no meu trabalho anterior e na empolgação em torno do atletismo jamaicano, Usain Bolt, e da cultura musical jamaicana, eles sabiam que tínhamos os elementos para tornar Sprinter um filme atraente e divertido.

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