Terceira edição do Lollapalooza Brasil consolida “experiência” sonhada por Perry Farrell

Durante o último fim de semana São Paulo foi novamente palco do Lollapalooza Brasil, que se mudou do Jockey Club para o Autódromo de Interlagos.

Com dois dias de festival (um a menos que no ano passado), a terceira edição do Lolla foi a mais redonda das três feitas no Brasil, mas ainda tem coisas para melhorar.

Estrutura

O Autódromo de Interlagos recebeu muito bem a terceira edição do Lollapalooza. Muita gente ficou de “mimimi” por causa da distância entre os palcos, mas essa foi a mesma galera que se queixou da proximidade dos mesmos nas edições anteriores. Aí fica difícil, né?

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Não tivemos vazamentos de som de um espaço para o outro, o que já foi um ponto positivo. O palco Skol, que recebeu as principais atrações, tinha a melhor visão do Lolla. Em qualquer lugar dava pra assistir e ouvir bem aos shows, e muita gente ficou sentadinha nos morros curtindo apresentações lotadas como as do Muse e Arcade Fire.

O palco Onix, segundo maior em importância, teve o barranco como inimigo, já que em shows como o do Imagine Dragons, em que um grande público se deslocou pra lá, a visão e o som ficaram bastante prejudicados. O clima quente e sol ajudaram, mas já pensaram como ficaria esse palco caso tivesse chovido? Não ia parar uma santa alma em pé, já que era gramado e terra.

O palco Interlagos funcionou bem, mas sua saída ficou pequena quando o público era grande, quem assistiu ao show da Lorde quase foi esmagado na saída.

Alimentação

Muito criticada nas edições anteriores, a alimentação do “novo Lollapalooza Brasil” merece destaque. Eram muitas opções espalhadas pelo festival, isso sem contar o Chefs Stage, grande acerto e que levou comida de verdade (tinha de paella a comida mexicana e muitas opções para vegetarianos) pro evento, nada daqueles x-picanha com gosto de papelão das edições anteriores.

Os bares também deram conta da galera, bastava pensar um pouco e evitar áreas de grande aglomeração, assim como os caixas e banheiros. Ah, as fichas de comida e bebida também mudaram, este ano elas valiam para os dois dias de evento, ao contrário dos anos anteriores.

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Trocar Heineken por Skol também foi um defeito pra quem gosta de cerveja. Com o forte calor, a impressão que se tinha era de estar bebendo água, tamanha a falta de sabor. Além disso, a escolha por servir chope atrapalhou o fornecimento, já que as máquinas são bem mais complicadas e lentas de se tirar a cerveja do que latinhas. Outra coisa para se pensar e melhorar para 2015.

Transporte público

Ir e voltar de trem do Autódromo de Interlagos foi algo totalmente possível. No sábado a volta foi um pouco mais tensa, mas eram 80 mil pessoas indo embora ao mesmo tempo.

Talvez se o festival vender uns 20 mil ingressos a menos isso seja corrigido ou investir em transporte próprio do evento. Já  no domingo, a coisa foi bem mais tranquila.

Quem deixou o Autódromo assim que o Arcade Fire saiu do palco, conseguiu chegar na estação da CPTM por volta das 22h50, tempo suficiente para chegar até a estação Pinheiros do metrô.

Shows nacionais

Queria saber até quando os artistas brasileiros serão tratados como “atrações de abertura” pelo Lollapalooza. Sério, ver artistas como Silva, Vespas Mandarinas e Apanhador Só tocando nos primeiros horários de seus palcos é muita sacanagem.

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Silva apresentou seu novo show, levou uma baita banda, mas tocou às 13h10 do sábado. Os gaúchos do Apanhador Só, que figuraram em todas as listas de melhores do ano com o álbum Antes Que Tu Conte Outra, tocaram às 12h15 do domingo pra meia dúzia de gatos pingados e debaixo de um sol senegalês. Uma tremenda falta de planejamento.

Até nomes mais “conhecidos” como Raimundos, Brothers of Brazil e Cone Crew Diretoria se apresentaram em horários duvidosos.

Tirando a Nação Zumbi, que tocou às 20h do sábado (5), no palco Interlagos (o menor deles), todos os brasileiros ficaram de canto. Saudades do palco da OI FM da primeira edição do SWU, em que novos nomes da música brasileira eram melhores aproveitados.

Artistas latinos

De que adianta ter edições do Lollapalooza no Chile, Argentina e Brasil quando os três festivais não conversam e não trocam artistas locais? Acorda, Perry Farrell!

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E os poucos que vieram, como Café Tacvba (veja bem, eles são do México), Illya Kuryaki & The Valderramas (Argentina) e Francisca Valenzuela (americana filha de chilenos), tocaram em horários tão ruins que quase nem existiram para o grande público.

Gigantes em seus países de origem e no restante da América Latina, Café Tacvba e Illya Kuryaki foram colocados em horários de iniciantes. Os mexicanos ainda tiveram sorte de estarem no palco mais próximo da entrada, enquanto que os argentinos foram isolados no palco Onix, com o sol do meio-dia na cabeça.

Os shows foram ruins? Pelo contrário, Café Tacvba emocionou fãs, enquanto que os Kuryakis desencanaram da visão desoladora que tinham – pouca gente se deslocou até lá – e simplesmente fizeram questão de se divertir no palco.

Lorde e Imagine Dragons

Desde o anúncio de seus primeiros shows no Brasil até o Lollapalooza Brasil, Lorde e Imagine Dragons cresceram em patamar nas suas carreiras e isso foi percebido em suas apresentações no Lolla.

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Os norte-americanos reuniram o maior público dos dois dias no palco Onix, que ficou literalmente pequeno pra eles. Muita gente se esforçou para ver Dan Reyolds dar um show de carisma e se emocionar com canções como Fallen, Demons, On Top of the World e Radioactive. Show que caberia facilmente e ficaria bem mais aconchegante se tivesse sido realizado no palco principal.

O palco Interlagos também ficou pequeno para Lorde, mas a pouca experiência e a falta de elementos visuais ficariam estranhas em um lugar maior.

Acompanhada apenas por dois músicos, um tecladista/ programador e um baterista, Lorde apresentou as canções de Pure Heroine, álbum que traz a premiada Royals e a deliciosa Team.

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No palco, Lorde dá conta do recado, apesar da pouca idade, 17 anos. Ela canta com vocais dobrados e tem uns chiliquinhos ao ritmo das batidas. Tímida, a cantora se surpreendeu com o carinho dos brasileiros e agradeceu muito.

NIN e Soundgarden

Ambos responsáveis por fechar a programação do palco Onix no sábado e no domingo, Nine Inch Nails e Soundgarden tocaram para fãs, mas estavam longe de serem apresentações saudosistas.

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Assistir a uma apresentação do NIN é ver de perto toda a genialidade de Trent Reznor. Tudo é pensado e perfeitamente executado no palco. Nenhuma música entra sozinha, vem sempre acompanhada por efeitos visuais hipnóticos, nem sei como não apareceu aqueles avisos para quem sofre de epilepsia antes do show começar.

Reznor é um cara de poucas palavras, quase nem falou com o público, e se preocupou apenas em tocar uma paulada atrás da outra como Wish, March of the Pigs, Burn e Gave Up.

A frenética Head Like a Hole e a balada Hurt (que não é do Johnny Cash, viu?) fecharam o set. Sério, deve ser muito difícil tocar no mesmo festival que o NIN. Que show!

Agora o Soundgarden foi outro destaque do Lolla. Teve gente que contou mais público vendo os veteranos do grunge do que o Arcade Fire. O que não é difícil de se acreditar, já que tanto banda quanto fãs estavam loucos para finalmente se encontrarem aqui no Brasil.

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O som do palco Onix durante o Soundgarden não estava tão redondo quanto o do NIN, mas acho que isso é muito mais o perfeccionismo de Trent Reznor do que uma falha do festival.

Chris Cornell mostrou que continua com uma voz boa, coisa rara em vocalistas que alcançam notas altas com tanto tempo de carreira. E a prova disso veio em Spoonman, Outshined e Jesus Christ Pose, músicas que exigem mais do gogó de Cornell.

Entre uma música e outra canção do álbum King Animal (2012), o Soundgarden enfileirou hits e lavou a alma de muita gente, principalmente em Black Hole Sun, Burden in My Hand e Rusty Cage.

Indies pra todos os gostos (e cantos)

Julian Casablancas, Phoenix, Portugal. The Man, Johnny Marr, Pixies, Savages, Vampire Weekend, nunca um festival grande (Planeta Terra não conta, já que é de nicho) deu tanto espaço pra representantes do indie rock como essa edição do Lollapalooza. Tinha opção pra todos os gostos e idades.

Pelos horários que batiam, obviamente que não deu pra ver todos, o que acabou sendo uma vantagem, já que o público se espalhou bem pelos palcos durante as apresentações das bandas citadas.

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Delas, a grande decepção (se é que alguém ainda esperava alguma coisa) foi o show do vocalista do Strokes, que mostrou canções novas acompanhado pelos amigos do The Voidz.

Sério, tudo bem que ele já disse que está cansado do mainstream e que gostaria de voltar a tocar com o Strokes em lugares pequenos, mas essas músicas novas não possuem melodia, é apenas uma barulheira embalada por um vocal cheio de efeito. Uma coisa horrorosa. E não adianta usar a desculpa de que é “experimentalismo”. Não dá.

A reação da massa foi exatamente a que Julian queria: ninguém entendia nada! 11th Dimension, do primeiro solo, e Take It or Leave It, do Strokes, foram os únicos momentos de real interação por parte do público. Tanto que o vocalista percebeu isso e ficou falando que curte futebol, numa tentativa (frustrada) de conseguir alguma reação positiva, encerrando o show oito minutos antes do horário programado.

Conterrâneos de Julian, os caras do Vampire Weekend fizeram um dos grandes shows do Lollapalooza Brasil. A banda tocou às 16h30 e o clima quente combinou perfeitamente com as canções do grupo, principalmente as mais dançantes Holiday, Cousins e A-Punk.

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O vocalista Ezra Koenig ainda fez o público feminino de derreter sua  jaqueta jeans com um Babar bordado nas costas e por momentos de pura fofura e clima de romance, com as faixas Everlasting Arms, Giving Up the Gun e Hannah Hunt.

Johnny Marr e Pixies mexeram com os sentimentos dos indies mais velhos. O primeiro tocando músicas do Smiths (Stop Me If You Think You’ve Heard This One Before, Bigmouth Strikes Again) e chamando Andy Rourke para tocar How Soon Is Now? (mais Smiths!) com ele.

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Já o Pixies causou reações diferentes, tem gente (eu me encaixo aqui) que não se conforma em ouvir músicas como Bone Machine sem os vocais de Kim Deal, baixista que deixou o grupo em 2013 e foi substituída por Kim Shattuck.

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Mas tirando isso, Black Francis (ou Frank Black) mantém o vigor de sempre no palco e, para quem nunca viu um show, realmente arrepia e emociona ouvir ao vivo Broken Face, Monkey Gone to Heaven, Where Is My Mind? e Here Comes You Man. Baita climão bom de nostalgia!

Arcade Fire

Quem foi ao Lollapalooza Brasil teve a chance de assistir um dos maiores shows da atualidade.

Já vou logo pedindo desculpas por não ter visto o New Order no Lolla, mas a vida é feita de escolhas e a minha foi pelo Arcade Fire. Vi que muita gente elogiou o show do New Order no Lolla, então se você assistiu e quiser contar pra gente sua experiência nos comentários, fique a vontade.

Voltando ao Arcade Fire, a banda de Win Butler e Régine Chassagne consegue ser ainda melhor no palco do que nos discos. Tudo é amplificado, a intensidade na execução, a entrega dos integrantes, que se completam com a resposta ainda mais forte e calorosa do público.

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Reflektor, que dá nome ao último disco e a turnê, abre a apresentação seguida da estranha Flashbulb Eyes, mostrando que coragem para ousar a banda tem.

Fica difícil saber qual momento levantou mais o público, se foi na beleza de The Suburbs, na explosões de Ready to Start e No Cars Go, ou nas dançantes Afterlife e Sprawl II (Mountains Beyond Mountains), essa última com todo o carisma de Régine Chassagne.

Here Comes the Night Time fez a transição perfeita para o encerramento apoteótico da apresentação, que como já é tradição, terminou com Wake Up e um coro gigante do público, que deixou Win Butler na dúvida se ia embora ou ficava ali, regendo a massa ao som de seu violão.

Os fogos não foram levados pelo Arcade Fire, apenas era a forma do Lollapalooza Brasil dizer tchau, deixando tudo mais lindo e consolidando a experiência que Perry Farrell tanto buscava ao trazer o festival para o Brasil. Acho que agora vai!

[TEXTO Bruno Dias FOTOS Divulgação/T4F]

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