VI Geração da Família Palim do Norte da Turquia lança e comenta seu terceiro disco

Lá no antigo e, agora longínquo ano de 2006, eu e Bruno Dias visitamos o festival paranaense Demosul, realizado na aprazível cidade de Londrina, norte do estado. Entre as muitas atrações que ainda não conhecíamos e com as quais nos surpreendemos, pudemos ver pela primeira vez uma apresentação dos doidões da Família Palim, banda da cidade vizinha de Maringá.

Na época, os tresloucados turcos made in Paraguay nos deixaram um tanto quanto perplexos e atiçados com a qualidade e irreverência de sua música, compilada no então primeiro disco que recebe o curioso nome da banda. Passado esse primeiro impacto e depois de trocar uma ideia, foi até simples assimilar a mensagem que a turcaiada queria nos transmitir: rock escrachado, o deboche do punk e inúmeras referências à sonoridade dos anos 70, virtuose dos riffs e cavalares doses de bateria, além de uma proximidade bem peculiar ao BRock dos Titãs e afins.

Passados esses 5 anos do primeiro contato, a Família Palim passou por algumas mudanças, tudo muito bem contado numa ótima história extraordinária no site oficial da banda e desde então lançou dois discos e dois EPs. Essa verborragia lírica-musical, que no final das contas trata da coisa mais difícil do mundo (a adoração ao nada), sem grandes ambições – a não ser o auto-divertimento e fama dentre os seguidores das vertentes independentes de nossa música nacional – faz-se ainda bem válida neste que é contado como quinto trabalho da carreira dos Palins, Rock’n’Roll Truck.

A essência da Família Palim e todos os detalhes que fazem de sua música uma verdadeira preciosidade desconhecida das maiorias antenadas continua firme e forte nas 11 faixas que compõem o disco. Da colagem de samples ao auto-tune e até uma versão para “Beat on the Brat”, clássico ramoníaco, a Família Palim engrossa o caldo das bandas que conseguem mesurar os aparatos dessa tal de música moderna, com toques hi-tec e boa engenharia de som (basta ouvir faixas como “Motociclistas na área 51”e “Black Smoke”), sem perder a identidade ou soar (tão) repetitivo.

Urbanaque – Vocês se apropriaram das colagens, como em “Quero jogar sinuca”. Como rolou esse toque de modernidade?
Hastür – Pegamos aquela fala do Inri [Cristo] de um vídeo no Youtube em que ele aparece no Programa Livre fazendo aquele belo discurso. Olha só nesse endereço aqui:http://www.youtube.com/watch?v=oNMmy3fMDzA

Urbanaque – Quem teve a belíssima ideia de “Desça o cacete”?
Hastür – “Desça o cacete” rolou quando fizemos um show em Curitiba com os meninos do Charme Chulo. A ideia da versão veio de uma frase que costumava-se dizer: “você quer saber se um guitarrista é bom, pergunte se ele toca “Beat on the Brat” dos Ramones. Se tocar, aposte no rapaz!”. Aí começamos a tocar ela e já no camarim começou a sair a versão que foi terminada mais tarde na casa do Igor Filus [vocalista do Charme Chulo].

Urbanaque – A Família Palim tem sempre um dedo de crítica mais puxada pro escracho, pro deboche como em “Caiu na Net” e muito da sonoridade tem aquele pé calcado no rock BR, nos riffões setentistas e no hard rock, mas tem umas coisas (por exemplo o vocal de “Funk do Palim”) que me lembram muito as bandas paulistanas mais novas, como o Daniel Belleza e os Corações em Fúria. Como é manter essa linha “retro” e “moderna”? É um lance natural?
Hastür – Olha só, a Família Palim tem isso da crítica, doboche mesmo, o que sempre nos causou mais problemas do que soluções, porém isso faz parte de nossa natureza e não é forçado, também não é uma preocupação e nem uma obrigação da banda. Realmente nesse disco a sonoridade que procuramos foi a do rock setentista, buscamos os mesmos amplificadores (Valvulados), pedais e captadores de guitarra para reencontrar aquele som antigo, acho que deu bem certo! Quanto à influência do Rock BR, creio que ela apareça nas letras curtas e na forma de cantar, sem muitas melodias, como faziam os Titãs dos anos 90. O “Funk do Palim” é cantada pelo Daniel Belleza mesmo, é o próprio maldito que cantou!

A nosso pedido, a Família Palim preparou um faixa-a-faixa do novo disco. Dá uma olhada:

Quero jogar sinuca na casa do Inri – A música antes de tudo é uma vontade da banda, podíamos até criar uma campanha, né? Já pensou no slogan: “Ajude a Família Palim a jogar sinuca na casa do Inri!” Mas a música é sobre essa figuraça autodenominada ”Inri Cristo”.

Desça o Cacete – É uma homenagem e uma paródia da música “Beat on The Brat” do Ramones. Ela foi gravada com os vocais de Josimar Ramone, vocalista da banda Ted Gugu e os Espanta Neném (Maringá). Josimar é um dos maiores especialistas em Ramones do Brasil e diz ter cantado a música com as mesmas nuances usadas pelo Joe Ramone no show de Chicago em 1985!

A incrível história do padre voador – Putz, é a história de um padre que resolveu dar um rolê aéreo se pendurando em balões de oxigênio, aí voce já sabe no que deu, né?

Let´s Ride – Poxa, é uma música feita para se ouvir andando de motoca na estrada e conta a história de um maldito que se perde na vida em cima de uma bela motoca estradeira!

Caiu na Net é Pau – Essa música é sobre aquele velho probleminha de se perder o celular com vídeos e fotos “indevidas”. Vai dizer que você nunca viu ou ouviu a frase: “Ah, coitadinha! Perdeu o Celular!”?

Funk do Palim – Putz, essa música é uma das mais antigas do disco e tem a magnífica participação do Daniel Belleza que nos fez o favor de engrandecer nosso disco com sua bela voz! Feita para dançar!

Rock and Roll Truck – Essa é uma daquelas músicas que definem um disco: ela tem a sonoridade que queríamos, tem uma forte influência, timbres e riffs das bandas dos anos setenta.

Motociclistas na Área 51 – Vejo as fotos da Área 51 [área militar restrita no deserto de Nevada, EUA] e fico imaginando: “Já pensou um puta encontro de motos naquele lugar?”. Além disso, a música tem aquele instrumento “alienígena”, o theremin, que dá um clima mais que especial para a canção!

Cavalo 52 – Essa é a história de um camarada que tinha problemas dimensionais com preservativos.

Orestes Song – Nossa, Orestes Song foi feita com as falas da participação do Orestes Quercia no programa Roda Viva, onde ele discute firmemente com o jornalista Rui Xavier. A discussão entre os dois é genial e imperdível. Se você ainda não viu, confira nesse link: http://www.youtube.com/watch?v=0Rif7tEk4i4&feature=fvst .

Black Smoke – Acho que é a música que conseguimos reunir o maior número de influências possíveis: ela tem um toque de Grand Funk, um riff feito com Wha Wha e Fuzz Face no estilo Jimi Hendrix, tem uma letra com palavreados bem conhecidos do Jorge Ben (camarada, que beleza e maravilha). Porém, é o solo de bateria que dá o toque especial para a canção, afinal que banda nos últimos 30 anos gravou um solo de bateria em seu disco de estúdio?

[TEXTO: Mariângela Carvalho FOTOS: Divulgação]

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