Vinícius Lemos explica saída do Casarão da Abrafin: “Somente saímos de uma associação que não nos representa”

Semana passada a notícia de que 12 festivais estavam deixando a Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes) causou surpresa e deixou o cenário brasileiro em polvorosa.

Os festivais El Mapa de Todos (Brasília), Goiânia Noise, Rec Beat (Recife), Psycho Carnival (Curitiba), Abril Pro Rock (Recife), PMW (Palmas), Casarão (Porto Velho), Demosul (Londrina), Campeonato Mineiro de Surf (Belo Horizonte), Gig Rock (Porto Alegre), 53 HC (Belo Horizonte) e Tendencies Rock (Palmas), se juntaram a Porão do Rock, Mada e Eletrônica, que já haviam deixado a associação em agosto deste ano.

Um vídeo com alguns dos representantes desses festivais foi divulgado, explicando algumas das razões que levaram esses festivais a deixarem a Abrafin, tendo como razão principal a falta de distinção entre Abrafin e Fora do Eixo.

O Urbanaque conversou com Vinícius Lemos, idealizador do festival Casarão, que explicou as razões da saída de nomes tão grandes da Abrafin:

O que motivou a saída do Casarão da Abrafin?
Nos últimos anos a Abrafin concentrou as trocas de ideias e encontros somente entre a diretoria e isso acabou deixando os festivais cada vez mais isolados e indo contra a principal característica entre os festivais: encontros, trocas de tecnologias e mercado de música. E ao mesmo tempo, nos ultimos dois anos, a Abrafin tendeu ainda mais a relação com o Fora do Eixo e sempre em busca de ocupação de espaços, o que a distanciou exatamente mais dos festivais não Fora do Eixo. E somos exatamente isso. Então, aos poucos ficamos cada vez menos representados e nisso, começou a pouco influir ser da Abrafin e ser necessário um posicionamento específico sobre isso, uma tomada de atitude.

O fato do Talles Lopes ter assumido a presidência da Abrafin contribuiu pra isso?
De um certo ponto sim. O atrito entre os que saíram agora e a diretoria começou desde uma reunião no Itau Cultural em São Paulo. Houve muitos desentendimentos de todos os lados. Porém, ao menos em nome do Casarão, no último Jambolada, ano passado, com a eleição da nova diretoria encabeçada pelo Talles, resolvemos dar um tempo de trabalho, havia um aceno de tentativa de acalmar ânimos e reconciliação e, principalmente, de que a hora era a busca do mercado da música e que a politica já estava estabelecido. Então, eu digo é que depois de um ano de gestão do Talles vimos que não houve a mudança, não houve uma prioridade em buscar o mercado, sem isso, a ideia era sair. Demos um ano para mudanças que não vieram. E agora foram propostas novas mudanças em rumo a mais política e mais entrar no modus operandi FDE [Fora do Eixo], que funciona para eles e é algo legal, mas que também vemos que existem outras possibilidades e cada qual é livre para escolher a sua.

Ao lado do Casarão outros festivais também deixaram a Abrafin. Pretendem se juntar para formar uma “associação independente”?
Quando você não está se sentindo contemplado ou representado você busca pessoas que pensem em comum. A vinda pra São Paulo para a última reunião da Abrafin foi discutida e debatida entre os festivais e assim, havia a necessidade política de se posicionar e dizer “não somos Fora do Eixo”. Isso foi unânime entre os 13 festivais que saíram. O principal era tirar essa vinculação do Fora do Eixo a festivais de notoriedade e que não têm essa forma de trabalhar. Não há um formato único na música e na produção de festivais. O que funciona para um pode não funcionar para outros. O que vai acontecer? Agora é sentar e conversar. Temos um início de ano já pela frente para pensar. Vários festivais que saíram antes e agora temos representatividade bastante para formar uma Associação, porém a hora é justamente de pensar os reflexos da saída. Mas, pensamos em algo, vamos nos encontrarmos e vamos ver.

Quantos anos o Casarão ficou na Abrafin? Quais as vantagens e desvantagens de ter se afiliado?
Entramos em 2007, já contemplados pelo edital da Petrobras, e ficamos até agora, 4 anos como membro da Abrafin. No inicio a temática era uma balança entre mercado e articulação política. No ano de 2008 foram feitas no sentido de mercado, uma parceria com a Sol, depois com a Trama e uma busca com a Converse. Ações que todos os festivais foram contemplados como na Sol e alguns nos outros. As vantagens nascem também com a chancela, uma Asssociação que representava o que era de melhor feito na música brasileira. Mas, de um tempo pra cá, não havia mais distinção pela imprensa, público, bandas e patrocinadores/editais sobre o que era Abrafin e o que é Fora do Eixo e assim tivemos que sempre responder por assuntos e polêmicas que não eram nossas. A medida que foi aumentando isso dentro da diretoria e rumos da entidade, foi sendo muito dificil continuar.

A Abrafin perdeu força com a saída do Fabrício Nobre da presidência?
Eu entrei na associação na metade da primeira gestão do Fabricio. Ele conseguia aglutinar todas as tendências da Abrafin, tinha legitimidade clara dentro da música e do mercado. Claro que era difícil seguir num rumo e a tentativa era grande. Porém, no segundo mandato já com o FDE dentro totalmente da diretoria, foi cada vez tendo um suporte FDE, o que levou a começar a balança para os rumos do que está sendo tomado hoje, uma descentralização em redes menores e disvirtualização da Abrafin a trabalhar da mesma forma como o FDE. O Fabrício tinha outra postura, mas não sei se seria bastante para barrar isso. A Abrafin perdeu força com a sua saída, justamente pela entrada de alguém que apesar de trabalhador como o o Talles, que buscou muito os festivais, ainda não tinha um nome com legitimidade clara e natural, teve que passar o ano visitando as regiões para se legitimar, o que levou justamente a perder um ano de negociação e somente utilizar as negociações do FDE, aproximando ainda mais as duas entidades, o que nnão era o intuito desses festivais desfiliados.

Vai ficar mais difícil conseguir apoio e inscrições em editais fora da Abrafin?
Eu acho que não. Nos últimos 3 anos não utilizei a Abrafin para nenhum apoio e os que poderiam rolar, caíram. Nos editais acho que até a nossa saída tem uma importância de mostrar para os curadores, patrocinadores, empresas e agentes públicos que existe outra tendência, não existem somente a via e a produção FDE. Estávamos sendo taxados de FDE e ainda colocamos somente como um número a mais, um estado a mais. Creio que fora da Abrafin, nesse momento de reposicionamento da cena e de colocação política, pode ser melhor estar fora da Abrafin do que dentro.

Como você analisa o cenário independente desde a criação da Abrafin? E como ele fica agora sem festivais tão importantes de fora?
O cenário mudou e principalmente a indústria continuou a cair. Os festivais se ampliaram e a algumas bandas conseguiram virar toda essa época tocando mais e se fortalecendo, mas ainda é incipiente, ainda é muito complexo fazer todo ano um festival ou manter uma banda profissionalmente, mas a busca é ano a ano, pela melhoria, para abrir a mente das empresas, dos agentes. E vejo melhora, vejo muito mais bandas com público. Sobre como ficam sem os festivais, na verdade, os festivais vão acontecer em 2012, acho que até com mais gás, com mais vontade. Não vamos parar, somente saímos de uma associação que não nos representa. Os públicos, patrocinadores, bandas e parceiros desses festivais podem ficar tranquilo, a nossa cena vai melhorar e vamos sempre estar aqui, a nossa vontade é fazer festival todo ano, independente do que aconteça, esse é o lema, a música é o lema de tudo isso.

Ao seu ver, o quê precisa ser modificado nesse modelo criado pela Abrafin?
Acho que podemos falar do que pensamos para a gente. A Abrafin quando eu entrei e pelo que acompanhei de perto desde o início era um fortalecimento de festivais para um posicionamento político e de mercado. Fizeram muita política, esqueceram o mercado. Agora o intuito é buscar os princípios da Abrafin, a forma com que ela nasce lá em novembro de 2005 no Goiânia Noise, e buscar parcerias em comum, necessidade em comum e atitudes de mercado. Política serve como meio de posicionamento, como forma de se chegar num mercado e não como fim. Acho que essa é a busca da forma que queremos, o modificar será exatamente isso. Não achamos ruim quem faz diferente, só acreditamos em outros caminhos.

[TEXTO Bruno Dias FOTO Reprodução/ YouTube]

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