Conheça o segredo da banda Gentileza

Banda Gentileza 4 (credito - Diego CWB)

Com quase cinco anos de carreira a Banda Gentileza conseguiu moldar seu som, construir seu disco de maneira coerente e se destacar em meio aos inúmeros projetos que surgem todos os dias nas esquinas de Curitiba (PR).

Apesar de essencialmente pop, o álbum de estreia do sexteto, produzido por Plínio Profeta, não se prende a conceitos pré-estabelecidos. Há samba, rock e MPB, usados para construir canções propriamente ditas, daquelas que funcionam se tocadas apenas ao violão, com uma banda ou com o que for. Você percebe aquela preocupação de quem não está só brincando com possibilidades e esperando o resultado final.

Em uma daquelas tardes de domingo bem curitibanas, com sol e cerveja, o vocalista Heitor Humberto topou conversar com o Urbanaque. Na pauta, passado, presente e futuro. “Afinal de contas”, querendo ou não, eles parecem estar preparados para a avalanche que os espera. Papo brabo com um cara legal. Confira:

Qual a parcela do Plínio Profeta no resultado final do disco?  Qual a real contribuição dele?

Então, somos uma banda com seis vozes, todos falando algo. Começamos a fazer arranjos, músicas novas, cada um dando sua opinião. Em “33B”, por exemplo, nenhuma parte se repete, ela vai mudando e mudando, íamos colocando novos elementos… Na verdade, estávamos tentando agregar tudo o que conseguíssemos e acabava soando exagerado e, na maioria das vezes, não conseguíamos limpar isso, entende? Já tínhamos a ideia de chamar alguém capaz de dar uma lapidada mesmo, tirar os excessos, deixar apenas o essencial, apostar na nossa diversidade, mas ao mesmo tempo mantendo uma unidade. O Plínio foi direto ao ponto. E foi ótimo, porque quando pensamos em gravar sabíamos que alguém deveria produzir – se fossemos nós mesmos certamente ia dar cagada (risos). Pensamos: “Pô, quem tem todas essas referências, todos esses elementos e pode colocar no disco na medida certa?”. Já conhecíamos o trabalho do Plínio de outros discos, Pedro Luis, Kátia B, O Rappa… Então, se o cara produziu tanta gente diferente, ele vai conseguir trabalhar conosco. Mandei material, ele curtiu e acabou rolando. Logo na pré-produção ele já começou a limpar as músicas, tipo: “por que você faz isso aqui na bateria?”. “Ah, não sei”. Ele dizia “se não tem explicação pode tirar” (risos). Algumas músicas ele foi limpando dessa maneira. Mas acreditávamos que ele fosse mexer mais, na maior parte do tempo ele dizia “É isso aí, essa é a cara da banda!”. O trabalho dele foi lapidar mesmo, dosar. Ele tem bastante participação nos arranjos, baixo e bateria, foi no que prestamos mais atenção, para ele o baixo precisava colar com a bateria e nós não éramos acostumados com isso, até por falta de conhecimento (risos). Olhando agora você percebe que as músicas ficaram muito mais coesas. Com alguns poucos toques dele, tudo se valorizou muito. Acredito que a principal influência dele foi essa: dar uma unidade – mesmo com cada música sendo independente em relação às outras. Isso nos deixou muito felizes, estávamos receosos que não pudesse ficar bom, que ficasse uma bagunça.

E a idéia de transmitir as gravações, como surgiu? O resultado foi o que vocês planejavam?

Estávamos prestes a entrar no estúdio e seriam dez horas por dia, durante dez dias. A Pamela, da Alavanca (elas estão nos produzindo agora) queria fazer um diário de bordo gravações, eu pensei: “Pô, legal. Vou poder escrever sobre o que está acontecendo no estúdio, divulgar a gravação”. Faltando um dia, ela falou “Por que vocês não transmitem isso ao vivo?”. Eu fiquei com receio e disse “pô, os caras vão ficar olhando o que estamos fazendo no estúdio, todas as surpresas que preparamos, todos os nossos erros vão aparecer, pode pegar mal…”. Lembro que ela respondeu: “Meu, cala a boca! Olha no que você fica pensando!” (risos) No final, decidimos topar. Divulgamos pelo twitter e no primeiro dia deu pico de 15 pessoas – tínhamos como medir, mas a rotatividade era muito grande, então acreditamos que muitas pessoas puderam assistir já no primeiro dia. E estúdio é um ambiente meio chato, é muito repetitivo, então passávamos um bom tempo no computador, conversando com as pessoas e isso criou uma proximidade muito grande com o público, estreitou a relação. Depois eu cheguei a pensar “meu, se tivesse alguma banda fazendo isso eu iria querer assistir!”, por curiosidade mesmo. E isso que eu sou músico, imagina a pessoa que não faz idéia de como é esse ambiente. Nos divertimos muito com isso e nos aproximou do nosso público, o que hoje em dia é importantíssimo. Cada pessoa que você consegue trazer para perto, ter um contato mais direto, interagir é algo muito bom. E fora o fato que divulgou muito a banda, com isso pessoas que não conheciam a banda passaram a conhecer, começaram a conversar conosco e mantemos contato até hoje! Foram só coisas boas dessa experiência.

É um álbum sobre “desamor”, corações que não batem e amores não correspondidos… Tudo isso. Tem algum motivo?

Tenho a impressão de que esse é um tema que se resolve mais facilmente, é mais tranqüilo para ser escrito. Mas não é algo pensado. Acho que acabou sendo uma coincidência, até porque não há nenhuma motivação pessoal e nenhuma anti-musa a ser atingida! Foi uma coincidência o fato de a maioria das letras terem ficado com esse sentido.

Eu esperava algo extremamente brasileiro. E acho que, até certo ponto, isso foi alcançado, mas ao vivo, você percebe que como um todo, há também flertes com toda aquela “doideira” das bandas do leste europeu, até na estrutura da banda. Como mesclar elementos – teoricamente – tão opostos entre si? Qual a importância dessa mescla?

É tudo muito natural, na verdade, vamos criando, um fala, outro vai falando e vamos inserindo elementos.  Algumas vezes soa exagerado, outras vezes soa bacana. Tentamos dosar muito os elementos, porque se cada um começar a pirar muito fica estranho (risos). Não paramos para pensar se podíamos ter feito tal coisa. Tipo, nos desafiamos um pouco também, mas só aceitamos o desafio se for divertido para todo mundo (risos). Alguém fala “e se fosse dessa forma”. “Não, isso não vai ficar legal”. E assim vai indo. Com quase cinco anos de banda, cada dia, vamos juntando mais elementos, mais experiências e tudo isto, no disco, como já foi dito poderia soar confuso. Voltando ao Plínio, acredito que ele participou em um ponto crucial da banda. Estávamos exagerando e precisávamos filtrar. Desde então somos mais organizados e tentamos levar isso para o palco também. Apesar de serem vários instrumentos e cada um fazer seu papel direitinho, a partir de um “ensaio”, de uma pré-produção, temos mais consciência em termos de estrutura, conseguimos mapear melhor a música. Nossa “pira” sempre foi exagerar demais e agora nos sentimos muito mais a vontade para criar algo.

Vejo várias “vertentes” no álbum. Tem a beleza de “Teu capricho, meu despacho”, ingênua e inocente… Preguiça é quase um hino à vagabundagem. Há tanto canções de fácil apelo como há outras mais elaboradas. Foi intencional? Como surgem as letras? E toda a preocupação com os arranjos? Nos shows, eles me parecem muito bem elaborados.

Acredito que também é natural. “Teu capricho, meu despacho”, quando fiz ela alguns anos atrás, não tinha pensado nela do jeito que é hoje, tipo, “tocandinho” (risos). No primeiro show, ensaiamos um arranjo, o Jota fez uns slides e acabou em algo meio country, meio caipira mesmo. E eu, por algum motivo, cantei com aquele sotaque caipira, puxando o “R”. Quando o Emílio entrou na banda, puxou ainda mais o lado caipira, ele colocou viola, depois colocamos um backing vocal. Então são coisas que vão sendo aperfeiçoadas ao longo dos anos, para chegarmos ao resultado final. “Sempre Quase” também foi assim, o Plínio colocou uns efeitos meio “trapalhões”, deu uma cara bem legal.

Com relação a letra, é complicado! (risos). Grande parte das letras são minhas e eu demoro muito para escrever!. Quando tenho alguma idéia fico muito tempo trabalhando em cima dela. “Afinal de Contas”, eu tinha feito a base no violão e queria fazer uma letra para ela. E não conseguia. Mostrei para o Garapa na virada de 2007 para 2008, ele me deu uns toques, mas para terminar a letra foi quase um ano. Sendo bem honesto está difícil sair algo novo. Eu até queria fazer algo mais solto, mas para mim é difícil. Eu “piro” muito com a forma, é meio que uma tortura. Eu não queria ficar tão preso a ela, queria fazer algo mais solto, sem rima talvez, mas não consigo. Bem, talvez por isso o Artur já tenha feito algumas letras, “Pia de Prédio”, “33B” e “O Indecifrável Mistério de Jorge Tadeu”, que são idéias bem diferentes das minhas, dá para perceber que foi outra pessoa quem fez.

O que mudou com a entrada do Emilio? Ele foi fundamental para sonoridade do disco?

O principal guitarrista da banda acaba sendo inevitavelmente essencial para a sonoridade, seja do grupo ou seja do disco. O Jota, nosso ex-guitarrista , e o Emílio tem estilos diferentes. Acho que a entrada do Emílio deu uma força no sentido de que aconteceu em um momento que estávamos diversificando os instrumentos dentro da banda e ele é um cara que toca vários (pô, ele até construiu um ukelelê!). O Emílio trouxe a viola caipira, bandolim, inseriu o violão. Sem contar que ele é o integrante que mais estudou música. Então a visão teórica dele também ajudou a resolver alguns arranjos, alguns backings. O resultado disso tudo aparece no disco. Sem dúvida, a presença dele foi muito importante.

No “Rock De Inverno”, ouvi algo engraçado. Disseram que vocês, de certa forma, fugiam um pouco da estética indie que domina Curitiba. O que você acha?

Legal! Concordo, até é algo que agora não sentimos tanto, porque, de certa forma, já conseguimos nosso espaço na cidade. Mas para chegarmos até aqui foi complicado… Desde o começo, tínhamos uma proposta de fazer algo mais animado, mais alegre. No palco nos divertíamos, pulávamos, dançávamos. Talvez fosse apenas impressão minha, mas parecia que causávamos algum estranhamento. Acho que a gente buscava uma interação com o público que acabava não existindo. O contexto talvez não nos favorecesse. Quando tocamos em algum lugar aberto, um shopping ou em algum evento, parece que a receptividade é bem maior. Muitos senhores e senhoras vêm falar conosco após os shows, ou mesmo crianças ficam dançando e dando risada com alguma piada. A impressão que dá é que a receptividade fora da cena indie é bem maior, principalmente em Curitiba. Ainda mais depois da alegria que foi tocar em um piquenique durante a tarde com um palco montado na grama. Foi muito mais prazeroso do que se apresentar em qualquer bar. Acho que tudo isso acaba fugindo dessa estética indie.

Não é aquela coisa fácil não é? Que bate e pega, é um pouco mais elaborado…

Pode ser, acho que por ser mais extrovertido, chegar querendo animar… E o curitibano tem isso um pouco, parar, olhar e ficar analisando. Leva um tempo para entrar na onda. Tocamos em Joinville e Blumenau, onde o pessoal é um pouco mais receptivo. Ninguém nos conhecia e o pessoal lá, dançando. Pô, foi lindo. E aqui, o pessoal que não conhece fica com aquela cara de “oh, tá vendo”. Não sei se isso é bom ou ruim, também não quero julgar, as pessoas estranham um pouco e tivemos que insistir para conquistar nosso espaço.

Nos shows, algumas vezes, me pego pensando que vocês foram congelados no tempo e acordaram hoje…

É meio complicado. Escutamos tanta coisa, colocamos tanta referência, tanto sons mais atuais como mais antigos. O que posso dizer é que as pessoas dos mais diferentes níveis gostam do nosso som: do neto à vovó. Cara, criança ouve e gosta. Moleque de oito, nove anos prestou atenção na música, achou engraçado e gostou.

O disco foi lançado faz pouco tempo, como está sendo a repercussão dele?

Acho que tem sido muito positiva. Colocamos na internet e avisamos os amigos, fizemos divulgação, mas nada muito grande. E no primeiro dia tivemos 400 downloads no nosso link. Sem contar outros blogs que optaram por usar links próprios. Tipo, “vendemos” 400 discos no dia de estréia (risos) – ok, não ganhamos nada, mas vendemos. E isso que o disco chegou semana passada. Sem contar resenhas, vários comentários que só aconteceram graças a essa divulgação. Então estamos esperançosos que essa amostragem que tivemos com o disco na internet, possa agora ser maior com o disco físico. Pretendemos divulgar bem forte e esperamos que essa repercussão em menor escala aumente. Não imaginávamos isso, acreditávamos que após o disco físico, shows é que teríamos uma repercussão mais legal. Já tivemos algo bacana, então já ta valendo.

E os próximos passos? Amadurecer, perder a inocência, cair nas drogas…

Então, é difícil. Sabíamos que viver de música no Brasil seria praticamente impossível e para nós é complicado até viajar, vamos tocar em São Paulo e só podemos no sábado. Não conseguimos chegar, trabalhamos até às 18h. Tocar no Rio? Meu, são 13 horas de viagem. Teria que sair sexta, tocar no sábado e voltar domingo. Nos convidaram para tocar em Santa Maria (RS) e em Porto Alegre, infelizmente não rola, apesar da nossa puta vontade, mas estamos conscientes das nossas limitações. Uma das nossas discussões foi quando estávamos gravando o disco, se valeria mesmo a pena investir pesado nele. Depois surgiriam convites para tocarmos em determinados lugares que não poderíamos ir. Na verdade, não sabemos o que fazer nesse momento, estamos deixando ir, o que conseguirmos fazer de shows vamos fazer. Enfim, se tiver alguma sugestão, nos avise!

[TEXTO MURILO BASSO FOTO DIEGO CWB]

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Comments (1)

 

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